A
TÉCNICA E O CORAÇÃO ÁRABE
A Dança do Oriente é muito mais do que uma dança e a única forma de a conhecermos realmente é entrando no universo complexo e fascinante da cultura árabe e, mais concretamente, da cultura egípcia.
Uma das características mais interessantes do processo de aprendizagem da Dança do Oriente é, a meu ver, o facto de nos transportar para uma música, uma dança e uma cultura da qual muito pouco ou nada sabemos e apresentar-nos toda a complexidade, contradições e beleza das mesmas.
O Ocidente é profícuo em idealizações e fantasias no que concerno ao mundo árabe e a dança oriental não é excepção no campo das ilusões que alimentamos em relação aos nossos irmãos árabes.
Além de muitos outros preconceitos que alimentamos em relação à cultura árabe (uns justificados e outros não), possuimos a ideia de que a dança oriental é uma forma de entretenimento de odaliscas para sultões, forma de sedução exótica ou simples reacender de chama entre marido e mulher. Todos estes preconceitos têm sido alimentados pela comercialização e marqueting desta arte que a vende associada ao sexo e à sedução, tornando a mulher em objecto de desejo cujo objectivo é cativar e conquistar o homem através dos seus movimentos sinuosos.
Tive a felicidade de ter iniciado a minha própria aprendizagem da dança oriental como uma folha em branco e , a partir daí ter aprendido com os melhores professores do mundo. Serei eternamente grata a muitos deles por terem redigido a mensagem certa nessa folha de total ignorância que eu era em relação a qualquer área da cultura árabe. Parti para esta aventura – que acabou por ser o meu destino! – como uma criança parte para a primeira visita à praia, ansiosa por ver o mar sem fim, totalmente pura e sem expectativas de nada por jamais ter imaginado como seria o vasto mar...
Um dos maiores ensinamentos que colhi veio ter comigo através do convívio que tive com o povo árabe desde a minha primeira viagem ao Egipto, numa altura em que ainda nem sonhava que esse país pudesse vir a ser a minha casa como acabou por ser!
De entre toda a técnica, passos, movimentos, coreografias, músicas e sua interpretação, mil e uma informações desveladas pelo tempo e pelo estudo e observação meticulosos, um ensinamento básico chegou-me das pessoas mais simples que muito pouco têm a ver com o meio artístico em que me movo e esse ensinamento tem a ver com a essência que eu reclamo para a dança oriental:
O Coração.
Sempre defendi – enquanto bailarina, coreógrafa e formadora de Dança do Oriente – que a dança árabe é, essencialmente, o Amor!A celebração da Vida e de Deus em Nós através do movimento.Confunde-se vaidade com auto-estima, egocentrismo com afirmação saudável de quem somos através da dança e pela vida, celebração da beleza e vitalidade femininas com sedução barata e desrespeito pela mulher vista como simples objecto de desejo e não como o ser criador e divino que é.
No Egipto, observei um sem número de pessoas simples – homens e mulheres – que, sem traje, nem jóias nem desejo de agradar a ninguém, me conquistaram a mim e a todos quantos os viram dançar pelo simples facto de serem movidos pelo coração.
O ser humano responde àquilo com que se identifica noutro ser humano e a partilha do mais profundo e secreto que reside nos nossos corações é o que distingue um mero executante de técnica de um bailarino.
Pude presenciar como o impacto de uma dança que vem sinceramente da alma é incomensuravelmente maior do que uma dança fria, calculada, correcta e ainda assim ineficaz por não trazer nada de humano a quem dela partilha.
A bailarina que mais me impressionou até hoje – e a qual ninguém jamais conseguiu suplantar, a meu ver – foi Souhair Zaki e ela era um exemplo vivo do que a Dança Oriental é, de facto, no seu âmago.
Souhair Zaki foi uma das bailarinas mais apreciadas e respeitadas (sucesso nem sempre significa respeito e esta bailarina usufruiu do sucesso e do RESPEITO do povo árabe, algo raro nesta parte do mundo quando nos referimos a bailarinas de dança oriental) de todos os tempos e, embora já se tenha retirado há mais de vinte anos, fez uma breve aparição num dos festivais mundiais do Cairo onde eu sempre estive presente.
Inscrevi-me para a aula que a Souhair Zaki daria nesse evento e foi no meio de muita expectativa e excitação que entrei para o salão onde essa figura outrora tão grande da dança árabe se encontrava, agora cansada e muito magra, bem longe da figura lunar e forte que outrora tivera.
O momento em que esta senhora começou a dançar foi o momento em que entendi do que se tratava, afinal, esta dança oriental que tinha sido totalmente estranha para mim até há bem pouco tempo. A simplicidade dos movimentos era proporcional à emoção que deles se desprendia e eu não consegui mover um dedo...fiquei ali, pasmada...observando aquela senhora de estatura tão mínima, enchendo o salão de luz com o amor que dela saía através de cada pequeno movimento.
As lágrimas rolaram-me pela cara e recordo de me ter sentido envergonhada de chorar tanto no meio daquela gente toda que, para todos os efeitos, estava a frequentar uma aula de dança e não uma terapia de vidas passadas ou traumas de infância!
Se há momentos em que recebemos uma luz divina no nosso coração e despertamos para algo superior, esse foi um desses momentos e eu soube instantaneamente que esta arte era o meu Destino e assim a entendi e senti profundamente, num segundo, através da vulnerabilidade de uma senhora que fora outrora estrela e que agora partilhava connosco mais do que uma aula mas uma forma de vida!
Desde essa altura que tenho ensinado e transmitido esse valor da emoção através da minha dança e defendo sempre que de nada valem mil movimentos vazios ao pé de um movimento com conteúdo emocional, sincero, vulnerável, aberto a partir do mais profundo de nós mesmos.
A cultura árabe fala sobre o amor, canta o amor e dança o amor como nenhuma outra cultura e, embora no seu dia-a-dia não o viva da forma mais saudável e sábia, consegue fazê-lo através da sua música e da sua dança.
Costumo dizer aos meus alunos e a pessoas que me perguntam sobre o segredo do meu sucesso e da forma como sou acarinhada pelo povo egípcio e a minha resposta é sempre a mesma: sim, é imprescindível saber dança, toda a técnica e variedade de estilos, todo o conhecimento que distingue um amador de um profissional mas, acima de tudo, é preciso abrirmos o nosso coração e partilhá-lo com os outros através do movimento, da pausa, da respiração e do suspiro. Partilhar o mais profundo de nós requere coragem, disso sei bem!
Ainda hoje sinto o medo de ser vulnerável em muitos dos espectáculos que faço mas sei que só assim consigo LIGAR-ME às pessoas que me vêm e comigo entram nesse fascinante mundo da música e da dança árabes.
O caminho desta arte é também o caminho da coragem, deixando para trás medos e abraçando a generosidade de nos unirmos aos outros através da dança.