PRÍNCÍPIOS BÁSICOS DA TÉCNICA DE DANÇA DO ORIENTE

Os conhecimentos, noções e conceitos que todos os praticantes de Dança do Oriente deveram colocar em prática...

A aprendizagem de Dança do Oriente é um caminho fascinante repleto de possibilidades e descobertas.

Quando um aluno se inicia nesta arte, fá-lo  - muitas vezes - com ideias pré-concebidas e expectativas que não correspondem ao verdadeiro potencial que esta forma de arte ancestral tem para lhe oferecer.

Todas as informações ou (des)informações que nos povoam o imaginário relacionado com a Dança do Oriente faz com que milhares de mulheres ( e homens, embora em proporção muito menor...)  espalhadas por todo o mundo busquem este tipo de dança como uma forma rápida de recuperarem a sua sensualidade e auto-estima. Associam esta dança a uma coreografia rápida de movimentos insinuantes que reconquistarão o marido/namorado/alvo da sua atenção, amigos e a ela mesma com um pano de fundo digno das"Mil e Uma Noites".

A Dança do Oriente é, de facto, uma forma possível de despertarmos para  o nosso amor-próprio, tantas vezes esquecido. É , também, uma forma de nos sentirmos melhor com o nosso corpo, personalidade e forma única de sermos e nos expressarmos no mundo mas é muito mais que isso...aqui entra em cena a zona misteriosa em que poucos entram quando têm o privilégio dado pela Vida de terem contacto com esta dança realmente mágica....

Assim como em todas as formas de arte antigas, existem ritos iniciáticos pelos quais todo o ser humano deve passar antes de penetrar no âmago, no coração de uma religião, prática religiosa ou mística.

A Dança do Oriente não é uma religião mas é , na sua origem e essência, uma forma de prática espiritual que traz o Corpo de volta à Alma e a Alma de regresso ao Corpo. O conceito de tratamento “holístico” do ser humano já era conhecido instintivamente pelos nossos mais antigos antepassados e a Dança do Oriente é prova disso. Este conceito encara o ser humano como um TODO inter-comunicante em que todas as partes – alma, corpo, coração, mente - estão relacionadas e em constante relação e inter-dependência. 

Este conceito “holístico” de visão do ser humano é particularmente próximo da Dança do Oriente e o desenvolvimento simultâneo do corpo, da alma e da mente são um dos preceitos mais importantes da aprendizagem desta forma de arte.

Podemos afirmar também que esta dança apenas revela os seus mistérios e enigmas aos que se mostram maduros e abertos para assimilar os seus conhecimentos.

A profundidade da abordagem com que os alunos entram neste mundo de dança e cor depende muito do estado de evolução em que se encontram, dos objectivos de vida que possuem, da sua pureza espiritual e abertura à VIDA na sua totalidade ( pontos baixos e altos, tristezas e alegrias).Só nestas condições se poderá iniciar o maravilhoso e transformador caminho de crescimento espiritual que é a Dança do Oriente!

 

Estes pontos podem resumir-se ao seguinte:

  1. 1. Recolocação da postura do corpo e da postura mental.

A primeira postura é muito mais fácil de corrigir do que a segunda pois é-nos muito difícil moldar uma mente que está formatada por ideias fixas, preconceitos, inseguranças e auto-imagens que nos tornam distorcidos aos nossos próprios olhos.

Recolocar o corpo, alinhá-lo e prepará-lo com as posturas mais saudáveis e anatomicamente correctas é apenas uma das partes deste processo para poder usufruir desta dança de forma saudável e benéfica para o corpo.

Recolocar a mente na função e espaço que lhe pertence é bastante mais complicado mas é possível. Saber quando e como usar o coração e como e quando usar a mente.

Não permitir que o “stress” e o “lixo” acumulado na nossa mente interfira na nossa vida interior e suplantar esse mesmo “lixo” de traumas e inseguranças através da dança oriental.

2. Regresso o natural -  uma respiração consciente e total.

Este tipo de respiração natural foi aquela com que nascemos e que fomos perdendo – como perdemos a frescura de quando éramos crianças – ao longo da nossa vida.

Enviar conscientemente o ar que respiramos para a zona abdominal e soltá-lo da mesma forma pelo mesmo percurso com a máxima profundidade e valorização. Esta é uma arte tão simples quanto esquecida e significa, se posta em prática, um acréscimo de  qualidade de vida.

O ar que respiramos é VIDA, é alimento, é energia e este é o principal combustível de quem se expressa através do corpo e do coração.

3. Equilíbrio e consciencialização da distribuíção do peso no nosso corpo.

Outro ponto invisível aos leigos e que é, ao mesmo tempo, de suma importância para quem dança. Saber onde se encontra o nosso ponto de equilíbrio, o eixo que é o centro do equilíbrio do nosso corpo é meio caminho andado para um movimento livre no qual o bailarino é dono e senhor do seu corpo, gerindo todo o seu potencial com engenho e naturalidade e oferecendo fluidez aos seus movimentos.

Ter consciência das transferências de peso de uma perna para a outra – enquanto caminhamos, dançamos...- pode parecer algo de menor importância mas joga um papel fulcral na qualidade final da nossa dança (o movimento sai mais fluido, menos tenso, utilizamos o balanço que o peso de alguns membros do corpo fornecem, etc...trata-se do uso inteligente do corpo!).

 

4. Reaprender a caminhar.

Um dos  primeiros movimentos de coordenação motora que executamos quando começamos a conhecermo-nos por gente é o “caminhar”. É o movimento que mais praticamos e é também aquele que mais esquecemos, por se tornar tão usual e mecânico.

A Dança do Oriente exige-nos o “não mecânico”, portanto, a primeira grande coordenação motora a ser descontruída  e relembrada deve ser o simples “caminhar”. Perceber o que se passa no nosso corpo quando caminhamos, onde está o peso do mesmo e como ele se desloca de uma perna para a outra. Matéria simples para grandes ensinamentos.

Observação de nós mesmos.Sempre.

 

5. Separar a técnica invisível da visível.

Este aspecto é um dos pontos chave da Dança do Oriente e significa que não se deve aprender esta forma de arte através da repetição e reprodução automática dos movimentos que um professor faz em frente a um espelho mas sim assimilar, entender, SENTIR, consciencializar cada movimento e torná-lo SEU.

Muitos dos movimentos de Dança do Oriente nascem em pontos inesperados do nosso corpo e é preciso saber onde estão esses pontos motrizes e como eles funcionam para os usar correctamente e assim aprender, de facto, a técnica de dança oriental que prepara o corpo para reagir a qualquer tipo de música.

 

6. “Abrir” e sensibilizar os nossos ouvidos para a música e ritmos árabes.

Se eu tivesse de seleccionar uma das tres qualidades essenciais para ser uma boa bailarina, eu diria que a sensibilidade auditiva é a primeira das qualidades a ter em conta sem a qual a nossa dança é sempre vazia e desligada da fonte de inspiração que nos faz mover: o som! A música! O ritmo! A melodia!

Antes do movimento, vem a música e é esta que seguimos quando entramos no universo mágico da Dança Oriental...os nossos ouvidos têm de estar sintonizados com os mais ínfimos detalhes da música que dançamos para os poderem interpretar e usar emocional e artisticamente.

A música a que nos habituámos no Ocidente muito pouco tem a ver com a música árabe usualmente utilizada para a Dança do Oriente.

Os nossos ouvidos não só não são estimulados, na maioria das vezes, como não têm contacto com este género de música de estrutura, ritmos e melodias tão diferentes daqueles a que nos habituamos.

Esta é uma das primeiras dificuldades com que a maioria dos alunos se deparam quando começam a aprender e durante todo o seu percurso.

Costumo dizer que um/a bailarino/a tem de saber ESCUTAR antes de saber DANÇAR. Quem não sabe escutar  a música “por dentro” do seu corpo etéreo de energias e sentimentos não saberá dançar, de facto.

É necessário treinarmos os ouvidos para a música árabe mas, mais importante que isso, é imprescindível uma abertura e atenção mental que nos permitam escutar e interiorizar os sons, as músicas e qualquer estímulo sonoro com total disponibilidade e valorização.

Refiro-me a um apuramento de sentidos, neste caso, da audição. Só com este treino gradual se chega a ouvir, sentir e daí poder transmitir o que ouvimos através do nosso corpo e alma.

 

7. Abrir o coração e perder medos.

Este ponto é um dos mais sensíveis e aquele que considero um dos  mais importantes por ser aquilo que dá ou tira conteúdo, forma e significado à dança de cada um.

Se não perdermos o medo de nos expôr física, emocional e psicologicamente, a dança oriental passa-nos ao lado.

Mostrar quem somos, vulnerabilizando-nos através da dança, é dos passos mais corajosos e assustadores que se podem tomar mas é também dos passos que mais benefícios e alegrias nos traz pois carrega em si o potencial de nos libertar, de sermos mais NÓS MESMOS, de sermos MAIS FELIZES na nossa pele e aceitarmo-nos partilhando com os outros tudo o que levamos dentro de nós. Grande CHAVE para a aprendizagem desta arte...

 

8. Desenvolvimento simultâneo de várias faces do nosso SER.

Com isto quero dizer que não é possível evoluir na Dança do Oriente se apenas nos centrarmos na técnica ou apenas na expressão livre dos nossos sentimentos.

A dança oriental é uma mistura apurada – como um tempero executado com sensual precisão e inteligência !!! – de técnica, expressão, interpretação da música e liberdade de sermos quem somos e revelarmos ao mundo o que trazemos cá dentro.

Um tecnicista nunca poderá dançar, apenas nos pode mostrar técnica, passos que aprendeu e colocou num catálogo demonstrativo muito eficiente mas sem sentimento nem significado.

Alguém que se mova livremente mas sem um vocabulário de dança bem treinado e diversificado apenas exercitará o caos, o que pode ser benéfico em termos terapêuticos mas é muito pouco interessante enquanto prática de  dança.

Os passos e movimentos , quando bem assimilados, tornam-se um alfabeto em aberto que podemos usar e recriar consoante a nossa própria criatividade. De cada movimento, sairá uma palavra sonora e bela, de cada associação de movimentos, sairá poesia...directamente do coração de quem dança...

Uma mistura de ambas as vertentes – a técnica e o instinto – são a combinação ideal para se usufruír ao máximo desta dança.

 

9. Sentimento na dança.

Considero este aspecto o mais importante de todos e aplica-se a qualquer género de dança ou arte.

A música é o alimento para um coração atento e aberto. Se esse coração escutar a música com os seus próprios meios ( não os meios da Mente que intelectualizam e complicam o que é simples SENTIR) poderemos SENTIR o que escutamos e quando há SENTIMENTO, há DANÇA.

Sou conhecida por ser uma ferrenha defensora do sentimento na dança pois considero – e a minha experiência pessoal e profissional em países árabes assim mo prova diariamente – que esta é a essência sem a qual a dança oriental não ACONTECE.

Um bailarino frio e fechado do ponto de vista emocional não poderá representar esta dança de forma fiel. Chega-se até à comunicação através da expressão dos sentimentos veiculados pela técnica e abdicar disso é como comer uma laranja luzidia e aromática mas sem gomos, sem sumo, vazia por dentro. Pretende-se FORMA e CONTEÚDO. Sempre.

Sentimento é o “sine qua non” essencial desta forma de arte.

 

10. Pôr de parte a MENTE e abrir espaço para a Alma.

“Não pensem demasiado! Não façam cálculos!”

Estes são comentários que os meus alunos ouvem constantemente da minha parte.

Alguém que confunda a sua alma, o seu mais profundo SENTIR com as matemáticas e cálculos constantes que a sua mente opera, engana-se a si mesmo e não evolui como poderia.

A Dança do oriente trabalha ambos os hemisférios do nosso cérebro e pede-nos uma recorrência constante ao nosso inconsciente e ao nosso lado mais instintivo.

Ela não se aprende matematicamente e um mais um  não são dois. Nenhuma fórmula resulta para todos os alunos e existe um lado de busca interior muito mais forte do que uma aprendizagem que é feita através da lógica a que estamos habituados e para a qual fomos treinados.

Pensar menos e interiorizar mais. Intelectualizar menos e sentir mais. Calcular e controlar menos e SENTIR-SE mais.

 

11. Paciência e auto-aceitação no ritmo próprio de cada um.

Não pretender atingir um ideal de perfeição que é apenas uma ilusão e que não levará ninguém a encontrar-se a si mesmo.

Cada aluno tem o seu próprio ritmo de aprendizagem e é necessário respeitar esse ritmo que é apenas mais um sinal da singularidade de cada ser humano.

Não querer andar mais rápido do que o nosso corpo nos permite e aceitar as nossas limitações como desafios e não como defeitos é meio caminho andado para evoluirmos mais rapidamente.

Paradoxalmente, quanto mais depressa se quer ir e mais nos forçamos a ser aquilo que imaginamos que “devíamos” ser, mais lentamente prosseguimos no nosso percurso de aprendizagem desta dança.

Deixem de lado os “deves fazer e deves ser” e permitam-se ser vocês mesmos, no ritmo e tempos que a vida vos ditar. “Assim em cima como em baixo”, fazendo referência à máxima da Alquimia. Assim na dança como na vida.

 

12. Tirar prazer do processo de aprendizagem, em vez de querer “atingir” uma meta final.

O caminho faz-se caminhando. O caminho é sempre mais importante do que a meta final. Esta meta é apenas um limite que nos auto-impomos mas que, em si, nada tem a ensinar-nos. É apenas um segundo projectado no futuro que pode estimular-nos mas que , por si só, não nos traz grandes benefícios.

Usufruir com prazer de todos os momentos que a aprendizagem nos oferece é a melhor forma de encarar todo o processo de crescimento.

Viver o AQUI e o AGORA e tirar o máximo partido do potencial de bem-estar e deleite que a dança oriental nos colona nas mãos.  

Estes são alguns dos princípios que resumi para alunos e praticantes desta forma de arte.

Existem outros princípios que considero importantes e que desenvolvo nas minhas aulas e cursos e todos eles partiram da minha experiência e conhecimentos pessoais. Estes princípios são parte integrante e essencial do meu método de ensino sobre o qual constantes descobertas me são reveladas. Espero que possam ser-vos útil.

Boas danças,

Joana Saahirah