VIAGEM AO EGIPTO

Uma aventura surpreendente, um caminho sem horizontes definidos nem limites...

 


Fotografia tirada a caminho do oásis

Há locais sagrados que parecem não ter princípio nem fim. Assim é o Egipto. Não basta visitá-lo, vê-lo, ler sobre ele, observar paisagens e monumentos.
É preciso vivê-lo por dentro, escutá-lo com humildade, contemplar a sua eterna e sublime sabedoria que se revela em pequenos milagres escondidos em cada esquina, em cada som, em cada face que se cruza connosco deixando o aroma dos séculos na nossa memória...


 

 

É preciso apertar mãos, abraçar gentes, trocar sorrisos cúmplices com as mulheres de olhos doces e por vezes tristes, rir com homens tão perto e tão longe de nós, refastelar-se em cadeiras velhas com chás apimentados e “shishas” calmantes, amar num minuto como se amássemos há anos, saborear o passar dos dias e das noites sem pressa, perdendo-se no tempo e deixando-se levar pelos ventos quentes do deserto! É preciso abandonar tudo o que pensávamos sobre a vida e renascermos para novos dias.

Este é o país dos mil encantos, das almas dançantes, dos mistérios da vida disfarçados de caos e quotidiano. Este é o país dos seres humanos, em tudo aquilo que os seres humanos possuem de magnífico, vulnerável, contraditório e surpreendente!

Já viajei até ao Egipto diversas vezes – começo a perder-lhes a conta! – mas a última viagem que lá fiz foi especial e por isso decidi partilhar algumas impressões com todos aqueles que acompanham o meu trabalho e percurso profissional.

O que aprendi, vivi, senti e ouvi foi tão especial que não podia deixar de torná-lo público e aqui está ao vosso dispor uma sempre pálida noção daquilo que a Vida – minha grande aliada e exigente professora – me ofereceu nos últimos dias que passei por terras de faraós.

As palavras não poderão exprimir a totalidade e a dimensão exacta de tudo o que se passou naqueles dias de sol mas tentarei ser o mais fiel possível no meu relato.

Gostaria de agradecer à Vida por todas as dádivas que me proporcionou em mais esta viagem mágica e a todas as pessoas que se cruzaram comigo e contribuíram para o meu crescimento interior: Jimmy e familiares pelo afecto com que me receberam, Hussein e família pelos maravilhosos dias no Luxor e pelas lições de vida e, em especial, ao Reda pela grande aventura no deserto, pela aprendizagem com os Beduínos, por me ter ensinado o significado da palavra”Hob” (“Amor”) e tudo o resto, por me ter modificado a vida.O meu agradecimento a todos os encontros “ocasionais” que vieram enriquecer o meu universo interior e os meus conhecimentos da dança, da música e do ser humano!

 

O que é a vida sem desafios? Sem riscos?

Não a consigo conceber sem ser na permanente luta pela descoberta, pela felicidade, pelo auto-conhecimento e consequente conhecimento dos Outros.Por isso parti uma vez mais.

O que acontece quando alguém se apaixona? Existe aquela vontade de falar dessa paixão a toda a gente, há uma urgência em contar como é grande essa paixão e as nossas palavras projectam-se no ar com mais força e entusiasmo. Assim acontece comigo em relação à dança oriental. Cada dia que passa apaixono-me um pouco mais por aquilo que faço e vejo como se trata de algo realmente sagrado. Então sinto-me uma privilegiada, uma escolhida por todos os deuses e demónios, alguém que teve a boa ventura de caír nos braços desta arte e assim ter acesso à grande aventura da compreensão do Prazer, da Beleza, do Amor, da aceitação da Vida e do Ser Humano. É isto que a dança oriental me tem dado e a cada viagem que faço, a aprendizagem triplica e a minha alma regozija-se ao voltar a casa: o meu querido Egipto!

Aprendi com a dança oriental aquilo que os antigos egípcios já sabiam: existem mistérios na vida que jamais poderemos entender e nos quais nunca penetraremos. É essa impossibilidade / curiosidade / busca nunca satisfeita que nos faz evoluír e justifica a nossa existência. Partir do princípio que tudo tem de ter uma explicação é, na minha opinião, negar a magia de viver.

 

Quando estou prestes a ir para as terras do sol, digo para mim mesma: estou de volta a casa. Embora seja portuguesa, é lá que a minha alma e o meu coração residem, fui reencontrá-los lá e para lá sempre dançarei.

Iniciei mais esta viagem sem expectativa nenhuma pois aprendi que só assim se pode viver em paz e feliz. Sei que pode acontecer tudo quando vamos para um sítio como o Egipto. Nunca se sabe o que vai suceder. Sabe-se que os nossos planos serão certamente modificados e virados de cabeça para baixo, sabe-se também que será uma aventura diária em que a flexibilidade, o optimismo, a serenidade e a intuição trabalharão a todo o vapor!

Quando lá chego já tenho meio caminho marcado pois sou mulher – geralmente viajando sozinha em trabalho e estudo –sou solteira e sou bailarina profissional. Esta apresentação é suficiente para criar equívocos e provocar sorrisos demasiado entusiastas mas também constitui uma directa e eficiente ponte de ligação entre mim e todas as pessoas que vou conhecendo. Pude comprovar como a dança oriental é o melhor meio de comunicação entre mim e as pessoas com quem me cruzo. Nem o facto de se falar a língua árabe é tão eficaz como o facto de se saber dançar e assim tocar a alma de qualquer egípcio/a. Um movimento de anca dentro do compasso de uma música cujo ritmo é partilhado serve por mil palavras e despoleta uma festa, um cumprimento especial, um afecto imediatamente expresso!

O Egipto é uma terra com lógica e ritmo próprios. Se lhe tentamos impôr as nossas regras, preconceitos e lógica não obteremos resposta. Aqui o Nilo e a força do sol ancestral continuam a sobrepor-se a todas as regras dos milhões de visitantes que todos os anos lá vão.

Este país impôs-se na minha vida, tal como a dança oriental. Quando dei por mim, já lá estava sem saber muito bem porquê! E a paixão por ambos foi crescendo e transformou-se num amor enorme, um amor que se tornou a minha própria vida.

Apesar da pobreza e dos pouquíssimos meios em que a maioria da população egípcia vive, foi lá que encontrei as pessoas mais ricas e abundantes. Foi lá que aprendi grandes lições de generosidade, nobreza e humanidade. Costumo dizer que os egípcios são reis de ceptro invisível pois possuem na sua cultura, modo de vida e sabedoria antiga tudo o que existe de mais maravilhoso e simples.

 

Sempre viajei para o Egipto em trabalho e em estudo tendo objectivos bem definidos e sabendo de antemão o que queria ver, onde e como. Nunca, em momento algum, senti medo ou insegurança. O meu anjinho da guarda vive por lá e acompanha-me sempre que o vou visitar!

Desta vez não foi diferente e assim iniciei a minha viagem entre ruas, cores e cheiros confusos do Cairo. A música das buzinas dos carros confunde-se com o chamamento para a reza (cinco vezes ao dia) num “remix” curioso e único!
O Cairo é uma cidade cheia de vida, pulsante, incansável, colorida, organizada dentro da sua aparente desorganização. A palavra urgência não existe, apenas vida e ritmo.

Entre muitas coisas que sempre tenho de fazer quando estou no Cairo (o dever profissional assim o exige!) fui convidada para a festa de anos do Jimmy (o director da agência que organizou as minhas deslocações dentro do país).
avisada que teria uma concorrência ferranha no que diz respeito à Dança Oriental mas, como é habitual quando viajo para o Egipto, prefiro observar e aprender do que ser eu o centro das atenções!


Crianças no mercado de “Khan El Khalili”

 

O mesmo movimento mil vezes feito pode ganhar uma forma e dimensão diferentes uma vez que uma criança o execute ou surja na dança de um camelo que passa por mim... é preciso estar atento e sempre alerta para aprender em cada minuto. Quando chego ao Egipto, parto sempre do princípio que nada sei e assim evoluo muito mais, subo degraus e vou-me aperfeiçoando.
No Egipto, toda a gente dança. Eu disse TODA a gente, incluindo homens, velhos, crianças e talvez até extra-terrestres. É algo que está imbuído no quotidiano das pessoas, tal como a música e a religião. As crianças são incentivadas a moverem-se ao som dos ritmos contagiantes mesmo antes de começarem a caminhar. Não é preciso grandes motivos para se fazerem festas e não há festas sem dança e sem música. Sendo assim, podemos ter magestrais lições de dança no meio da rua, num barco a deslizar pelo Nilo, no mercado, numa esquina qualquer!

Fui maravilhosamente recebida em casa do Jimmy - comidinha egípcia típica incluída!!! – e todos dançaram até à hora em que me (literalmente) obrigaram a dançar. Não me fica bem reproduzir elogios, por isso acrescento apenas que mais ninguém dançou a partir do momento em que fui arrastada para o meio da sala. Dancei a noite inteira e tive como únicos companheiros as crianças que tentavam reproduzir todos os meus movimentos e um senhor cujo trabalho de ancas era exímio. Ele acompanhava-me com os “sagats” (discos metálicos similares às castanholas) e fez “tahtib” (arte marcial do Alto Egipto que deu origem à “Al Assaya”- Dança com o Bastão) comigo.
Um companheiro de dança incansável e encantador.

Depois de uma noite inteira de dança, levaram-me até um oásis na parte ocidental do Egipto e aí fui recebida de braços especialmente abertos pelo Reda e por toda a gente da aldeia. Quando cheguei ao oásis, como que por artes mágicas, já toda a gente sabia do meu “espectáculo” privado na casa da família do Jimmy. Graças a isso, fui levada aos melhores locais, àqueles que estão interditos aos turistas e que nos mostram a beleza do deserto, os seus mistérios escondidos e as subtilezas do seu calor humano.

Passei os meus serões na aldeia com o Reda e com os homens beduínos daquela zona. Uma mulher entre homens que cuidaram de mim e mimaram-me de forma tocante.

 

A cultura beduína subdivide-se em várias tribos com a sua localização mais ou menos precisa (pois trata-se de um povo nómada), com dialectos, vestuário, costumes, músicas e danças diferentes.

Nesta aldeia, as mulheres reúnem-se em casa e organizam os seus próprios divertimentos enquanto os homens se reúnem numa cabana coberta da aldeia onde tocam música tradicional beduína, cantam, dançam (um de cada vez, expressando a sua individualidade) e bebem chá feito na hora. Entre sons antigos e ritmos que me eram menos familiares, bebemos um chá beduíno fortíssimo com sabor a menta que nos mantinha acordados toda a noite.


Mahmoud executando o “camelo”

Para mim, é sempre interessante e essencial observar os músicos e as pessoas que dançam pois existe uma forma especialmente profunda de interpretar e sentir a música nestas terras longínquas em que o único divertimento é este serão. Nada de televisões, cinema, teatro, discotecas, etc. Existem cafés – como em todo o mundo árabe - que são um ponto privilegiado de encontro entre os homens e, para além disso, nada mais!

Estes cafés improvisam-se em qualquer lado, são povoados por simpáticas mosquinhas, são geralmente cobertos com panos coloridos e posters de cantores, actores e figuras caricatas. Os empregados, muitas vezes crianças, servem muito chá e fuma-se a “shisha” (pipa de água muito comum no Egipto), joga-se dominó ou gamão e conversa-se muito, vê-se o tempo arrastar-se à frente dos nossos olhos sem preocupação ou pressa...

Esta tenda beduína era realmente o centro de entretenimento da aldeia e os homens empenharam-se em tocar, cantar e dançar muito bem (a fama da noite de dança no Cairo chegara-lhes aos ouvidos!!)
em honra da minha presença.

 

Entre todos os homens destacava-se Mahmoud – irmão de Reda – que dançava com um lenço branco atado à cintura e com uma concentração digna do Ballet de Bolshoi!

A simplicidade e subtileza dos seus movimentos contrastavam com a energia por vezes brutal da música e todos os seus movimentos vinham do coração, sem preocupações estéticas ou de outra ordem. O gozo que a dança lhe dava era claro na expressão da sua cara e todos vibravam com ele numa onda de energia ondulante que só terminava quando outro homem lhe seguia os passos. Mahmoud ensinou-me, entre outras coisas que ele próprio desconhece, como fazer um camelo beduíno. Para quem não está dentro do vocabulário da dança, passo a explicar: o camelo é o nome de um movimento da dança oriental e existem várias formas de executá-lo. Mahmoud fazia-o com uma languidez e uma serenidade fascinantes e usava o mastro que sustentava a tenda como base de equilíbrio. Aqui entram as noções tão queridas ao Ocidente de sensualidade e convite à sedução geralmente associadas à dança oriental.

Os meus principais mestres de dança oriental foram homens e habituei-me a vê-los dançar sem pensar se eram homens ou mulheres. Todos eles me ensinaram, através da dança, que a sensualidade desta arte vem do prazer e felicidade em comemorar a vida e o nosso próprio Ser. Assumir claramente o prazer que esta dança nos proporciona e a alegria em sermos nós próprios durante esses momentos sagrados em que o movimento e a música se unem são os grandes motores que despoletam aquilo a que vulgarmente se chama sensualidade.

Foi isso que eu vi na dança do Mahmoud, a sensualidade pura, sem intenção nenhuma senão DANÇAR e SER FELIZ.

Observei-o cuidadosamente nessa e noutras ocasiões que se seguiram. Aprendi uma vez mais a função de renascimento e celebração que a dança tem para estas pessoas. Entrávamos num sonho colectivo de onde só saíamos quando a noite terminava...e a dança a servir de elo de ligação entre todos. A comunicação mais directa e mais rápida do que uma flecha!

Grupo de músicos beduínos (incluindo o pequeno executante de darbouka na foto ao lado), oásis

 

O Reda cantou e sentou-me entre ele e o líder do grupo, um cantor mais velho que tocava e entoava velhas canções beduínas com bonomia e um sentido de eternidade incrível... Recusava olhar para os meus olhos pois dizia que eram como “whisky”, embriagavam e roubavam a clareza do pensamento e a consciência.

Ali estive encantada até que me fizeram dançar e executar um pouco de “tahtib” (luta do alto Egipto que já referi). Em princípio, seria para dançar um pouco para agradecer a hospitalidade dos músicos mas, à semelhança do que sucedera no Cairo, fizeram com que dançasse a noite inteira!

Tinha sido previamente avisada de que não é normal nem muito bem visto uma mulher dançar num local público apenas na presença de homens. No entanto, tendo em conta a minha condição de estrangeira e bailarina, foi-me concedido um papel à parte do tradicional no meio daquele grupo de homens que me trataram como uma rainha do deserto!!!

Assim que comecei a dançar, pude ver como os olhares de admiração e atenção se espelhavam pelo recinto fechado sobre nós. Cada som, cada silêncio e cada suspiro começaram a servir a minha dança e vinham dirigidos a mim com um respeito e uma generosidade tocantes. Passaram a cantar e a tocar para mim, houve momentos em que apenas a percussão e a dança interagiam em solos criativos e plenos de vida a pulsar...

Assim se passaram noites dançantes onde me surpreendi muito para além do que as palavras podem exprimir. Dancei no meio do deserto (onde pernoitei), debaixo de estrelas e rodeada pela areia, pela raposa do deserto, pela música do silêncio, pela abundância invisível e clara da vida que lá se respira...


Eu e menina no café a meio caminho entre o oásis e o acampamento

 

Numa das viagens que fiz, parei numa cafezinho onde vieram ao meu encontro duas raparigas. Uma delas encontrava-se velada (sinal de que já está casada) e a outra vinha com um rádio velho na mão. Ambas sorriram docemente para mim e ficaram estáticas, expectantes, como que à espera de que eu lhes lesse os pensamentos... perguntei o que queriam e disseram-me que o marido da rapariga velada soubera do último serão musical na aldeia e falaram-lhe de mim. Sendo assim, o que elas desejavam era simples: queriam que dançasse só para elas. Assim foi.

Levaram-me para uma salinha escondida do café, a rapariga velada tirou o véu para que eu a pudesse “conhecer” e ali fiquei eu a dançar para as duas raparigas que olhavam para mim fascinadas. Nestes meios mais conservadores e de culturas fechadas, as mulheres têm o seu próprio mundo no qual os homens simplesmente não entram. Existe uma solidariedade entre elas, um casulo rendilhado a cor-de-rosa onde todas as emoções, contra-sensos e experiências são passadas de mulher para mulher sem que os homens possam intervir minimamente.
Os acontecimentos têm o valor que lhes damos, esta é uma verdade que pude comprovar uma vez mais. Para aquelas raparigas, aqueles momentos tomaram uma dimensão desmesurada e elas agradeceram-me como se eu lhes tivesse salvo a vida! Tirámos fotografias e, por breves minutos, pude ver alguma alegria na face resignada daquelas duas raparigas.


Eu junto ao templo de Philae, Assuão

Enquanto nos despedíamos umas das outras, o esposo da rapariga velada queixava-se com uma nítida expressão de enfado. Queixava-se da injustiça de lhe terem dado uma mulher tão “feia e chata” (eram estas as palavras que utilizou) e tomava-me como exemplo daquilo que era o seu sonho de mulher. Surpreendeu-me o facto de ouvir aquele homem a falar da sua própria mulher com repugnância e uma indiferença total!

Os casamentos entre beduínos – bem como noutros sectores da comunidade árabe – ainda são arranjados pela família. Assim sendo, a dissociação entre amor e casamento está quase sempre presente e não é de estranhar que exista a frustração, a resignação e a poligamia.

Existem duas paisagens que me são particularmente queridas: o deserto e o mar. Ambas me remetem para mim mesma e para as infinitas possibilidades da vida. Ambas as paisagens me lembram da força que a paz e o amor contêm. O deserto, em especial, pela ausência de estímulos visuais e auditivos, remete-nos à paisagem de nós mesmos e oferece-nos lições de vida e ensinamentos valiosos. Basta querer escutar e ler os sinais do vento, do sol, dos grãos de areia.

 

A minha viagem pelo deserto concluíu-se com momentos mágicos inenarráveis...

Passei por Alexandria com o objectivo de assistir e participar num ciclo de Conferências sobre a Cultura e Música Sufi que decorreram na biblioteca nova de Alexandria e tive contacto com um outro Egipto, mais europeizado em todos os sentidos.
Aqui encontrei-me com a minha querida Denise (minha amiga e aluna que eu adoro) que partilhou comigo a cidade de Alexandria com todas assuas situações cómicas e inesperadas!

Alexandria é uma cidade imensamente marcada pela presença romana (a história de Cleópatra e Marco António ainda servem de baluarte nesta cidade costeira) e com uma estrutura urbanística muito semelhante às nossas cidades europeias. O ritmo de vida é bem mais calmo do que no Cairo e os estabelecimentos e estilo de vida são similares a qualquer estância de férias. Como cidade mediterrânica que é, possui um clima fresco e uma vida muito pautada pelo turismo, especialmente no Verão.

Das conferências destaco uma em que se falou da relação entre o Vinho, o Amor, a Música e seus efeitos e o Extâse. A associação é clara para quem esteja minimamente familiarizado com a cultura sufi. O amor, a música, o movimento e o vinho têm a particularidade de nos embriagar e conduzir para uma outra dimensão. Todos eles nos transportam para outras divisões do nosso Ser, para o mundo do inconsciente, do abandono de si mesmos, da união concreta com o Universo. São todas elas formas de experienciar o Místico e o infinito amor presente em tudo o que existe.

De Alexandria fui para o Assuão, terra do sol e das aragens tórridas. A proximidade com a África negra faz-se sentir fortemente e a barragem do Assuão serve de mote para a maior parte das conversas. Ainda hoje, há pessoas que se recordam da quantidade de casas, templos, vidas e histórias submersas pelas águas da barragem.

O templo de Philae foi uma das construções sagradas que tiveram de ser removidas e recolocadas em local a salvo das águas (à semelhança do que aconteceu com as imponentes estátuas de Abu Simbel). As populações que viviam na imensa zona submersa, foram arrastadas para a zona central e periférica do Assuão e tiveram de conformar-se.

 

Respira-se África no Assuão. A música, a fisionomia dos seus habitantes, os cheiros e o calor seco. A música núbia substitui as melodias a que nos habituamos quando estamos - como eu – quase sempre no Cairo. Esta música reforça o abandono do corpo ao ritmo e à própria vida. É curioso como a expressão corporal e as danças destes povos reflectem a forma como se entregam à vida sem reservas, medos ou qualquer resistência.

No ocidente, quase todas as danças espelham a luta, o ir contra a vida, contra o “destino”, a acção do ser humano em colisão com o discorrer da vida, o agir sobre a vida não confiando nela.

A dança núbia, em particular, tem essa particularidade de mostrar uma entrega quase total em relação à existência. Os corpos deixam-se levar sem estarem poluídos por pensamentos inúteis e castradores. Simplesmente deixam-se levar pelos ritmos compassados e existe um embalo bonito em tudo aquilo...

No meio de um passeio de feluca ao redor da ilha Elefantina, deparei-me com uma criança que veio ao meu encontro num barquinho minúsculo. Perguntou-me a nacionalidade e preparava-se para me cantar uma música do meu país quando ouviu a palavra “Portugal”. Como já seria de esperar, ele não sabia nenhuma música portuguesa. Por isso, pedi-lhe para cantar uma música núbia. Ficou surpreendido por eu querer ouvir uma música núbia mas cantou-a com alegria e uma pontinha de timidez. Fui embalada pela feluca ao ponto de quase adormecer, vendo o pôr do sol com um olho fechado e o outro aberto. O embalar das ondas calmas do rio, fizeram lembrar as ondulações da dança. Só os corpos mudam, o movimento é o mesmo. Entre o corpo dançante do rio e o corpo humano não sei qual dos dois é mais belo...

Subi o Nilo num cruzeiro magnífico com vistas que parecem ter sido tiradas de outros séculos. Margens repletas de palmeiras, lindas mulheres carregando cântaros com água ou lavando a roupa no rio, barqueiros e crianças acenando aos cruzeiros que ali passam há pelo menos um século. Entre templos (Edfú foi especialmente impressionante para mim) e locais tirados de outros mundos, cheguei a Luxor onde pude ver o templo com o mesmo nome da cidade e o tempo de Karnak com o seu lago sagrado.


Coroação no templo de Edfú

 

A sabedoria e sofisticação dos conhecimentos do Antigo Egipto sempre me impressionaram mas o facto de estar fisicamente presente naqueles templos fez com que a admiração por aquele povo se suplantasse a si mesma. Não é só a magnífica e esmagadora energia que lá se vive mas também a sabedoria expressa em cada coluna, em cada capitel de significado misterioso... em cada esquina com uma história e simbologia específicas. Compreendi, de facto, o porquê do fascínio por esta civilização única!

Os antigos egípcios tinham uma concepção da vida avançadíssima e nós estamos, apenas agora, a aproximarmo-no timidamente de uma ínfima parte dessa concepção.
O Tempo tem a dimensão que lhe damos, assim como a vida e todos os seus acontecimentos tomam dimensões diferentes e até opostas consuante a perspectiva sobre a qual olhamos para tudo.

Um minuto não é um minuto, pode ser a Eternidade e os métodos quantitativos que desenvolvemos (como os relógios que sempre detestei por achá-los infantis !!) para nos dar a ilusão de uma segurança e controle sobre o passar dos dias e das noites não são mais do que jogos de crianças com medo de se perderem no meio de um jogo!

Nenhuma outra civilização conseguiu reunir o visível e o invisível numa só realidade.Nenhuma outra cultura conseguiu olhar para lá do aparente com tamanha profundidade e lucidez. Entre mitos, deuses, superstições e alegorias, os antigos egípcios conseguiram aceitar e lidar com o inexorável, com aquilo que é simplesmente o MISTÉRIO ou os MISTÉRIOS da VIDA. A Razão não é suficiente para entender e descortinar todas as realidades contidas neste infinito universo. São esses mistérios indescortináveis que nos mantêm vivos e activos na eterna busca de sabedoria e compreensão do universo. Como aquele povo conseguiu chegar a tamanhas conclusões ultrapassa-me a mim e muitos outros curiosos e até especialistas que dedicam toda a sua vida ao estudo desta civilização inigualável.


Eu no templo de Edfú

Achei curioso, entre muitas outras coisas, a utilização do “Ank” ( a Cruz ou Chave da Vida) como alimento sob a forma material e invisível, sob a forma de alimento/comida, ar, energia e até sémen. Todas estas formas de perpeturar a vida pressupõem uma enorme compreensão das diversas formas de alimento de nós mesmos. Outra coisa curiosa foi o facto da coroação dos faraós ser feita através do derramamento de pequenos “Anks” a partir da coroa da cabeça.

 

 

Quando um homem (ou mulher, no caso da rainha Hatshepsut, por exemplo) se tornava faraó, morria para a existência terrena e renascia como um ser sagrado, um intermediário da divindade na terra. Daí a coroação ser como um baptismo, um novo nascimento para aquele ser que passava a ser iniciado nos mistérios divinos. O derramamento das chaves da vida era então feito a partir da zona a que vulgarmente se chama sétimo chakra, o chakra da espiritualidade e da iniciação em diversas práticas espirituais. Além destes pormenores fascinantes pude comprovar como a noção de movimento como fonte de vida e evolução está sempre presente naquela civilização. O movimento físico, mental, emocional e psicológico unidos num só gesto: as mãos em posição de recepção (palma virada para dentro, em direcção ao nosso corpo) e as mãos em posição de dádiva (palma virada para fora).


Eu no templo de Hatshepsut, Luxor

 


Templo de Hatshepsut

O Vale dos Reis e das Rainhas, o templo solar de Hatsepshut onde a luz parece mais forte do que o próprio sol, Karnak de noite e de dia com todos os seus recantos e magias escondidas.
Os relevos onde bailarinas, acrobatas e músicos celebram a vitória das forças do Bem contra as forças do Mal, as construções de dimensão improvável para os nossos horizontes tão limitados, o lago iniciático de Karnak onde se consegue imaginar um panorama aproximado da grandiosidade que deve ter sido todo aquele complexo espiritual e humano.

No Vale dos Reis apercebi-me de algo curioso: os túmulos e respectivas câmaras funerárias dos reis começavam a ser construídos quando eles eram coroados e elevados à categoria de faraós e só terminavam aquando da sua morte. Por isso vemos câmaras funerárias de longos corredores e escadarias intermináveis e outras bem mais simples e curtas. Pode dizer-se que o Faraó começava a morrer no dia em que nascia como ser Divino pois a sua morte começava a preparar-se e materializar-se a partir da sua coroação!

No templo de Edfú, muitas das caras de deuses em relevos na parede forma picotadas e destruídas por cristãos que ocuparam aqueles tempos em fases tardias da história do Egipto.

Estes templos serviram de refúgio a muitos cristãos que lá viveram sem compreender nem aceitar os credos da civilização faraónica.Por medo e ignorância, destruíram parte deste precioso legado. Acreditavam que a representação física dos deuses permitia o reconhecimento da respectiva alma que, a partir da figura física do/a seu/sua dono/a, voltava a encarnar.


Eu e alguns familiares do Hussein – incluindo a avó ! – numa aldeia do Luxor

É impressionante como a intolerância, a ignorância e o atraso mental continuam a fazer parte do nosso mundo actual. O ser humano tem mudado muito pouco na sua essencial ignorância, isso é assustador!

O meu amigo e guia privativo Hussein (que me acompanhou em todo o cruzeiro e viagem ao Luxor e Assuão) levou-me para casa da sua família numa aldeia à beira do rio Nilo.

 

Aqui pude usufruir das mais emocionantes cenas de dança que vivi até hoje. À revelia das agências de viagem e da lei, Hussein levou-me até uma aldeia parada no tempo a 30 kilómetros do centro do Luxo. As aldeias que ladeiam as margens do rio Nilo continuam a padecer de imensas dificuldades e a tecnologia naquilo que tem de mais básico (água canalizada, luz, aquecimento,etc) chega muito lentamente a estes locais esquecidos pelo tempo. A actividade principal destas gentes continua a ser a agricultura e a pesca, sendo o rio Nilo o grande provedor de alimento como sempre foi desde há milhares de anos. Apesar dos meios materiais paupérrimos desta gente, a paz em que vivem e a generosidade com que se dão obrigam-nos a repensar o conceito de pobreza e de abundância.

Esta gente dá como se tivesse em fartura, oferecem como senão precisassem de nada e usufruem do pouco que têm com uma alegria contagiantes. Aqui as pessoas são especialmente bonitas, em particular as crianças. Por razões sociais e culturais, as crianças são levadas a desenvolverem-se mais rapidamente do que as crianças no Ocidente. Não do ponto de vista físico (aí a má nutrição e a ausência de cuidados são visíveis) mas do ponto de vista mental.As crianças têm um pensamento veloz, reflexos rápidos, expressões elaboradas, acções que se desencadeiam com imensa facilidade e sorrisos puros, alegres e despreocupados.

Durante o tempo em que fiquei hospedada em casa da família do Hussein, fui tratada como uma hóspede de honra e travei diálogos incríveis com as mulheres da família, os irmãos do Hussein e até com a avó que foi a personagem central da minha experiência naquela aldeia...

Entre tentativas – que já não estranho! – de me casarem, conversas baseadas em palavras soltas de árabe, risos e expressões de olhar, pude partilhar momentos inesquecíveis com aquela gente maravilhosa e tão bonita...passei um serão no terraço da casa da família de onde podia ver o Nilo e os campos de palmeiras rodeados de cana de açúcar (principal fonte de rendimento da agricultura egípcia). Provei comida de “fellahim” ( camponeses), deliciosa na sua imensa simplicidade e temperos fortes, dancei para toda a família como agradecimento da hospitalidade e conheci as casas de vizinhas e amigos que insistiram para que ficasse alojada nas suas respectivas casas, tornando difícil a tarefa de me despedir da aldeia e ir-me embora.

Quando viajo para o Egipto e, em especial, quando estou em locais muito quentes gosto de vestir-me com uma “gallabeya” ou “djellaba” ( túnica comprida que os egípcios geralmente usam ) e até esse simples gesto serve para que as pessoas se sintam mais próximas de mim.

Como é possível comunicar com esta gente sem que eu domine a língua árabe e sem que eles saibam uma única palavra de inglês???

O Hussein ajudava ao entendimento mas havia alturas em que só dançando a questão podia ser resolvida. Nas ocasiões em que dancei para e com eles pude experimentar aquele que é, de facto, o ambiente natural da dança. Este ambiente fez com que eu esquecesse que sou profissional e portuguesa. Simplesmente tornei-me num elo dentro daquela cadeia de alegria, partilha e puro afecto entre crianças, velhos e mulheres.

Chamavam vizinhos/as, vinham as avós, os netos, toda a gente para me ver dançar e as crianças acompanhavam-me timidamente ao princípio e depois efusivamente, deixando-se levar pelos meus movimentos, felizes pela atenção que eu lhes dava.

Um dos pequenitos presentes nestas ocasiões dançantes (órfão de mãe) foi a casa trocar de roupa e vestir a sua melhor “gallabeya” porque não queria fazer “má figura” perante a minha presença. Assim que dei dois beijos a cada criança, emocionei-me e senti-me tremendamente feliz pois consegui perceber a necessidade de carinho daquelas crianças. Assim que lhes dava um beijo, os olhos deles brilhavam e um sorriso enorme despontava nas suas caras num misto de timidez e de regozijo!

Ali deixei de ser Joana, a bailarina profissional. Passei a ser simplesmente eu, partilhando momentos e movimentos com aquela gente incrível que tanto me ensinou. Curiosamente e, à semelhança do que tenho constatado sempre, os meninos dançam muito mais do que as meninas, tal como os homens dançam muito mais do que as mulheres. Talvez por tabus e educação, as mulheres são menos participativas no que se refere à dança e à música.

Aprender a dançar com os melhores professores do mundo é algo de que me orgulho e que muito contribuiu para fazer o que faço com a qualidade que gosto de exigir a mim mesma mas aquilo que pude conhecer através desta gente simples nunca nenhum professor me deu. Este é o contexto natural da dança, é a sua manifestação mais espontânea e pura. Algo que nenhuma escola nos pode dar e eu fui presenteada pela vida por ter tido acesso a tudo o que vi, senti e ouvi.

Para finalizar, depois de expressões de apreço, muitos abraços e beijos fixei uma das expressões da avó da família que me ficou marcada na memória: entre palminhas que batia efusivamente e gargalhadas sonoras, ela dirigiu os seus braços na minha direcção e levou as mãos à cabeça diversas vezes e insistentemente. Perguntei o significado de tal gesto e Hussein explicou-me que se trata de um gesto de alto respeito e máxima hospitalidade.quer dizer: “coloco-te em cima da minha cabeça”, ou seja, da próxima vez que vieres visitar-nos serás tratada como uma rainha, levada em cima das nossas cabeças!

Passeei nas margens do Nilo com um bando de crianças atrás de mim e fui levada por um tio do Hussein a dar uma volta ao rio Nilo num barquinho minúsculo que me fazia sentir a frescura da água por baixo dos meus pés.

Tudo o que aprendi e vivi com estas pessoas não pode ser redigido nem explicado por palavras. A vivência de determinados momentos é sempre superior a qualquer relato que façamos deles.

Assim foi com esta viagem.
 

 


Fotografia tirada por mim no templo de Hatshepsut

 

A volta a Portugal deu-se, como sempre, com uma enorme tristeza e com a urgência de lá voltar.
Assim será em breve!