Continuação do Diário do Egipto

 

 

 

Lisboa, dia 7 de Abril, 2008

 

Estou muito feliz com o fim-de-semana que agora terminou.

Os grupos que vieram aos meus workshops eram pequenos mas compostos das pessoas certas. Eu acredito que as pessoas certas se juntam nestas ocasiões e só falta quem lá está.Assim foi...energia muito bonita, excelente trabalho da parte das alunas e eu sempre a exigir mais e mais, como é costume.

Apercebo-me que existe muito criticismo em relação à minha pessoa nas minhas costas mas sei que isso se deve à inveja, mesquinhez e falta de competência daqueles que gostariam de poder fazer o que eu estou a fazer e não não capazes por falta de talento, capacidades e coragem. Sou positiva por natureza e realista, mais que tudo...sei que só se inveja e critica quem FAZ coisas nesta vida e se dá ao trabalho de sair do seu cómodo lugar comum e mostra o que vale. Estou habituada a este fenómeno e adianto que me enaltece e me faz sentir mais especial do que sou, de facto...é maravilhoso para a minha auto-estima mas triste para quem perde tempo comigo e não usa esse mesmo valioso tempo para fins mais úteis  como sejam a sua própria vida, trabalho, sonhos...

Sugiro que se concentrem sempre naquilo que podem melhorar na vossa vida e deixar de lado sentimentos menos nobres que só vos enterram num buraco de escuridão e sofrimento no qual “ a galinha da minha vizinha é sempre melhor que a minha”...

 

Sempre que termino workshops intensivos ou aulas particulares, sinto-me como se tivesse saído de um sonho permanecendo meio nublada durante algum tempo depois do trabalho terminado...

Sinto que quero fazer mais e melhores coisas sempre que termino um workshop em Portugal. O entusiasmo e a paixão por esta dança não páram, apesar de tantos obstáculos que sempre enfrento...apenas me tornam uma pessoa mais forte!

 

 

 

 

Lisboa, dia 3 de Abril, 2008

 

Os dias dos meus workshops em Lisboa aproximam-se e eu estou impaciente e feliz por rever alunos e poder ensinar, uma vez mais.

A minha vida no Cairo, embora seja pontuada por workshops e aulas particulares a pessoas que vêm um pouco de todo o mundo, é basicamente composta por noites de espectáculos, preparação de espectáculos e dormir, respirar e comer espectáculos de todas as formas possíveis e imaginárias.

Quando regresso a Portugal e ensino a tempo inteiro, recordo-me dos meus primeiros tempos de carreira, quando ainda estava a começar a trabalhar na área da dança árabe e ainda não sonhava que esta arte mudaria (tanto!) a minha vida e me levaria a viver e trabalhar na metrópole da dança oriental: o Cairo!

É como um regressar às origens e um rever de caras que estiveram comigo nas primeiras aulas que dei que me encheram a alma de apoio, carinho e ensinamentos pois quem está do lado de cá, a ensinar, também aprende com os alunos e...muito! Sempre senti que aprendia mais com os alunos do que eles comigo, por mais estranho que isso possa parecer...observar comportamentos, reacções a movimentos e músicas, expressões, dificuldades e qualidades de cada personalidade, formas de corpo e alma tão diferentes mas, no fundo, com uma sensibilidade e um coração que nos une a todos, tudo isso e muito mais faz com que eu sempre saia de uma aula enriquecida e feliz.

Mal posso esperar pelo fim-de-semana!

Depois de ter preparado os workshops, voltei a fazê-lo, escolhendo novas músicas e construindo uma coreografia diferente para o nível mais avançado.Senti que tinha de fazê-lo.Chateia-me ser demasiado perfeccionista mas não consigo deixar de ser assim...

Dançar com cd é mesmo estranho...parece presunçoso dizer isto mas, de facto, estou habituada a dançar com a minha orquestra praticamente todos os dias e dançar ao som de um cd é como estar cheia de fome e tentar saborear comida sem tempero. Nada de aroma, sal, especiarias, alma, NADA! Sem sabor! Não sei explicar o fenómeno mas sinto-o.

Terá a ver com o factor humano, a energia e talento dos músicos, a espontaneidade e “nuances” que são sempre diferentes, a presença física do som e a emoção de dançar com uma orquestra ao vivo e para egípcios!Um pouco de tudo isso, talvez...Sei que foi uma luta coreografar esta segunda música escolhida propositadamente para este próximo workshop (e que penso ensinar em Inglaterra, proximamente...) porque não sentia a música e não havia estímulo, poder, emoção...acho que estou a ficar estragada de mimos!

Maravilhoso dia de sol que não podia deixar-me senão muito feliz!Grande corrida de uma hora respirando ar puro e as primeiras horas de sol português sobre a minha pele cansada e ávida de calor...assim que regressar ao Cairo, vou certamente arrepender-me destas palavras pois já está um calor tórrido lá pela  minha “casa”!

Tento colocar parte da minha “escrita em dia” e lembro episódios – já são tantos! – caricatos, chocantes e inacreditáveis vividos por mim desde que deixei Portugal há quatro anos atrás lançando-me à maior aventura da minha vida (até agora!). Relembrar um pouco do que eu já vivi e vi é emocionante mas extenuante.Sinto que já cá estou há quinhentos anos, muita vida cá dentro e à minha volta, muita alegria, medo, dor, surpresas e momentos de extrema felicidade já me passaram pela pele, é interessante rever alguns desses momentos e deixá-los marcados para o futuro através da escrita.

Ó, meu Deus...o chefe da minha orquestra anda a telefonar-me, perguntando-me quando é que eu regresso quando sabe perfeitamente quando é que eu tenho viagem de regresso ao Cairo...mais chatinho que...Meu Deus! Resta acrescentar que é uma personagem da qual eu nunca gostei e com a qual eu não me identifico minimamente mas sou obrigada a conviver com ele e a trabalhar diariamente ao lado da figura. Quando estou longe do caos da minha vida no Cairo, nem me lembro que ele existe mas ele faz questão de mo fazer recordar! Nem em Portugal me vejo livre da “sarna” egípcia!

 

 

 

Lisboa, dia 1 de Abril, 2008

 

Página de diário dedicada ao meu amigo “Ghandi” (ele sabe quem é!)

 

Sempre tive a sorte de, instintivamente, seleccionar as influências que me favorecem e beneficiam pessoal e/ou profissionalmente. Se sentir que algo é benéfico para mim, assimilo-o quase sem me dar conta e faço com que essa nova faceta da vida se torne minha também.Assim se passou em relação ao hábito de correr como forma de exercício físico mas, mais do que isso, como meio de relaxamento, renovação energética e ritual de meditação (assim é para mim!).

Sendo uma autêntica “gourmet” (gulosa, em bom português), a maior finalidade do exercício físico  foi, no passado mais do que agora, poder comer tudo o que me apetecia sem engordar e manter um metabolismo que jamais me permitiu pensar em dietas...ninguém acredita quando eu revelo que não me peso e nem me lembro de alguma vez o ter feito! De facto, não me preocupa porque sempre dancei, fiz desporto e mantive-me activa, além de ser dinâmica por natureza e gerir carradas de “stress” e trabalho que me aceleram – e de que maneira! – o metabolismo.

Por tudo isto, a ideia de manter uma rotina de corridas (ou uma rotina do que quer que seja!) era um pouco assustadora para mim e cheirava-me a monotonia, até ao dia em que comecei a correr no Cairo (em Sakkarah, em pleno solo sagrado da primeira capital do Egipto Antigo, no meio de burros puxando carroças, camponeses e toda uma panóplia de personagens retiradas de livros de História) lhe apanhei o gosto.

 

Para mim, é uma forma de me esvaziar a cabeça, acima de tudo.Relaxa-me imenso e prepara-me para uma fantástica sesta (se a minha disponibilidade o permitir) ou para um grande dia de trabalho ou uma noite de espectáculos!

É também uma parábola para muita coisa na vida e um desafio que coloco a mim mesma e pelo qual as minhas articulações pagam (coitadas!).

Hoje corri 45 minutos.Sem pausas. Sem me dar conta.Sem esforço. Fiquei surpreendida. Eu que corro uma vez por ano quando a lua me passa por cima e eu estou quase, quase a expodir, consegui correr 45 minutos a bom ritmo e sem sentir o esforço. Claro que a minha condição física adquirida pela rotina de espectáculos no Egipto me ajuda a criar resistência física e uma boa capacidade cardio-vascular mas não tenho o treino de corrida necessário para estas aventuras...descobri que isto é viciante!

Oh, Ghandi! Afinal tinhas razão, pá! A corrida vicia! Eu que não fumo nada, não bebo café ou uma pinga de alcoól e raramente toco em carne, acabo por viciar-me em coisas saudáveis e devo parte dessa benção a ti, Ghandi!

Dos vícios que posso enumerar, acuso-me de me pertencerem os seguintes:

Dançar. Sem comentários.

Estar apaixonada! Prometo sempre que não quero voltar a apaixonar-me por ninguém e, quando menos espero, lá a paixão me cai em cima! É terrível e extenuante...existirá coração mais ocupado e massacrado que o meu? Sempre apaixonado, sempre apaixonado...ufa! Que cansaço!

O  D. Juan ao pé de mim é uma Madre Teresa de Calcutá!

Ler. Sempre.A toda a hora.Em português, inglês, francês e espanhol para não deixar cair no esquecimento nenhum dos idiomas que falo correctamente... já falo fluentemente o árabe (dialecto do Egipto) mas não escrevo nem leio. Aprender a ler e a escrever correctamente o idioma árabe é um dos meus próximos projectos e uma necessidade cada vez mais premente.Falta-me o tempo. Há-de vir.

Beber chá constantemente. Todo o tipo de chás com excepção do chá preto que tem cafeína e me pesa um pouco. De entre os meus preferidos estão o chá de jasmim, rosas, Earl Grey com lavanda, canela e menta.

Cuidar do meu corpo com um bom banho marroquino (feito no Cairo!) e uma massagem.

Água.Mar.Praia. Tenho de sentir a água do mar na minha pele de quando em vez senão roço o estado de loucura.

Criar. O impulso criativo está sempre comigo.Não pára de se manifestar, seja através dos meus espectáculos, aulas, escrita, ideias e conceitos para outros negócios para mim e para os que me rodeiam, o que interessa é criar constantemente...

Ir ao cinema. Sou viciada em cinema e em bons filmes e excelentes actores. Posso ver um filme apenas por causa de uma interpretação mas jamais vejo um bom guião com maus actores. Talvez por ter sido formada como actriz, o campo da representação é um dos meus refúgios e campos de deslumbre. Amo Anthony Hopkins, Javier Bardem, Sandra Bullock, Paul Newman, Meryl Streep e tantos outros que me enchem a alma...não consigo estar mais do que uma semana sem ver um bom filme!Grande escape.Assumidíssimo.

Fazer piadas à custa de mim mesma, dos outros e da vida. Está-me nas veias e não consigo parar de gozar e fazer piadas de cinco em cinco minutos...é imparável, indestrutível e irritante (o meu avô paterno carregada a maldição, o meu pai também a carrega e o legado foi-me passado a mim...que fazer?!).É um vício que irrita muita gente mas é talvez o mais difícil de eliminar.

Finalmente, correr. Está a tornar-se um vício saudável e devo isso ao meu querido Ghandi. É também um desafio e uma forma de nos suplantarmos a nós próprios. Quando pensamos que já não podemos correr mais, respira-se fundo, concentramo-nos mais profundamente e...continuamos.Força de vontade, persistência, resistência física e psicológica e aquela vontade e força para correr “the extra mile” que distingue os vencedores dos vencidos da vida. Podemos equiparar as duas circunstâncias e vemos que têm muito em comum. Na corrida como na vida, é a força de vontade e o auto-controle para nos suplantarmos que marcam a linha entre os sonhos perdidos e os sonhos alcançados.

Através da corrida, exercito essa força de vontade, capacidade de perseverança e resistência tão úteis para a vida “cá fora”... porque , quando corro, entro noutro mundo que só a mim me pertence e a partir do qual vejo a vida a passar por mim, através de mim.Sabe muito bem.

Aconselho banho de imersão à luz das velas depois da corrida.Ainda só tive tempo para terminar o ritual desta forma ideal e, por isso, não posso considerá-lo um vício mas é uma sugetão que fica. Se estiver a chover enquanto estão a gozar o banho de imersão, é puro paraíso!

Obrigado,Ghandi!

 

 

 

Lisboa, dia 28 de Março, 2008

 

Acabei de chegar a Portugal e já me apercebi pelos comentários do pessoal e através do tele-jornal que a situação política, social e económica do nosso país continua de mal a pior...É nestas alturas que me recordo de muitas das razões que me levaram a querer deixar o país para poder evoluir, crescer e lançar-me a outros desafios que jamais me seriam permitidos no meu próprio país. É triste mas é verdade. Portugal não é o país das oportunidades e tão pouco é um país onde os talentos sejam facilmente reconhecidos.Existe uma lassidão e inveja nacional que povoam todos os feitos de portugueses e fazem com que os seus compatriotas lhes dediquem un escárnio e desdém próprios de quem gostaria de fazer “alguma coisa” da vida mas não possui forças, talento ou possibilidades para o concretizar e assim minimiza e aponta o dedo a quem se deu ao trabalho de sair do nosso cantinho e fazer melhor e mais, acumulando riscos, trabalho extra e muito sacrifício a fim de concretizar os seus sonhos.É triste porque amo o meu país e vejo as coisas belas que possui e das quais tanto sinto falta mas, no fundo, confirmo a necessidade de trabalhar fora daqui e ver o meu talento reconhecido a uma escala mais alargada.

Às invejas e aos impotentes da vida eu digo : “Curem-se! E mexam o traseiro!” bem à moda jocosa portuguesa.

 

Tenho o meu relógio biológico totalmente virado do avesso. Não adormeço antes das 4 da manhã e tento levantar-me cedo porque me frustra perder a luz das manhãs. A minha rotina do Cairo já viciou o meu corpo e , como estou acostumada a regressar tarde dos espectáculos, quando aqui chego o corpo continua a regular-se pelo hábito de deitar-me muito tarde...aproveito para colocar leituras em dia e até trabalhar no meu pc mas irrita-me esse impasse de querer dormir e não conseguir.

De regresso à comida portuguesa e às corridas ao pôr do sol.

Uma das coisas que me fazem falta é a comida saudável de Portugal. O peixe, os legumes, o azeite, as frutas que ainda sabem a fruta e não a água e a químicos e a possibilidade de correr meia hora em paz sem ser perseguida por homens, assediada e intoxicada com o ar poluído do Cairo. Ter acesso a comida desta fresca no Cairo é uma miragem e um local onde correr sem os supra-citados inconvenientes é outro sonho impossível! É bom poder fazê-lo aqui em Portugal.

 

 

 

 

Lisboa, dia 27 de Março, 2008

 

É muito bom estar de volta a Portugal!

Depois de uma curta e agradável viagem do Cairo até Lisboa, a distância que separa as duas cidades esbate-se e eu já não sei onde estou, se no Egipto, se em Portugal. Os dois países transformam-se apenas numa entidade que compõe quem eu sou.

No Egipto, tomam-me por egípcia (ainda que eu não me pareça minimamente egípcia no que respeita ao aspecto físico) e sou , cada vez mais, tratada como uma egípcia no meu trabalho (onde o reconhecimento por parte do povo me deixa muito feliz) e aqui em Portugal sou marginal, aquela que deixou o país e não regressou. Dou-me bem com ambas as confusões e as duas perspectivas fazem parte de mim.Tendo um forte sentido de identidade, sempre me foi indiferente o que as pessoas pensam de mim e, por isso, sigo sendo eu mesma par e passo com as imagens ilusórias que as pessoas têm de mim, no Egipto como em Portugal. As conradições fazem parte de mim e da vida e aceito-as como algo de interesse acrescido nestes dias e noites que vivemos.

 

Será possível que já sinta saudades do Cairo e ainda mal cheguei?A minha alma está profundamente ligada àquela terra e carrego o Egipto comigo onde quer que vá, assim como carrego Portugal, o nosso mar, canto e alma onde quer que vá.Metade portuguesa e metade egípcia.Possível?!

Jantar em casa com família.MUITO BOOOOOMMMMMM!Comidinha feita pela minha mãe e o sentimento de estar na casa matriz, de volta às origens. Sentir-me na autenticidade da companhia da minha mãe e do ambiente caloroso da minha família que me conhece e com quem eu posso partilhar tudo e estar em paz.Muito bom!

De volta à civilização ou...mais ou menos...Portugal não é o país mais civilizado do mundo, como todos sabemos, mas é um alívo poder sair à rua sem tapar pernas e braços e cara!A questão do assédio no Egipto é muito séria e incomoda-me sobremaneira. É bom estar no meu país por várias razões e poder vestir-me como quero é uma delas.

De volta ao trabalho. Vim mais cedo para Portugal para poder descansar um pouco e ocupar-me de outras coisas que não apenas a dança mas, felizmente, os alunos de cá não mo deixam fazer e os telefonemas começaram já a surgir, embora tenha chegado ontem à noite e faltar mais do que uma semana para os workshops de Lisboa! Sinto-me muito feliz pelo carinho das pessoas de cá e pela vontade que, muitas delas, têm de aprender mais e melhor.

O processo de criar uma coreografia é fascinante para mim. Eu jamais gostei de coreografias. Cresci a memorizar coreorafias nos meus anos de ballet e sempre senti que não era bem aquilo que eu queria e podia fazer de melhor. Quando descobri a beleza da representação e do quanto me podia conhecer a mim própria sendo actriz, respirei fundo mas sempre tive um text para memorizar e trabalhar e, ainda assim,  a necessidade de liberdade daquilo que queria dizer enquanto artista não era satisfeita.

Tendo descoberto a dança oriental, senti que- finalmente! – a minha linguagem tinha vindo até mim de braços abertos e não me pedia memorizações de mensagens que não eram minhas.Esta dança pedia-me para falar livremente da alma sem ensaios prévios mas com um grau de exigência técnica, criativa, emocional e física que até então eu não conhecera. Apaixonei-me. De rastos fiquei.Até hoje, mais do que nunca.

Quando o meu querido Mahmoud Reda me “obrigou” a trabalhar coreografias dele  por diversas ocasiões e razões – eu descobri, rapidamente,um novo mundo e foi ele quem me incentivou a coreografar para ensinar e para outras pessoas. Coreogafar para mim mesma seria algo totalmente fora do meu ser...ainda não aconteceu.

Comecei a gostar de coreografar para ensinar e o meu método em nada tem a ver com o método do Mahmoud (Reda) ou de outros grandes estres que conheço.Eles tomam o seu tempo, constroem a coreografia calma e espaçadamente entre vários dias de trabalho.

Eu sou louca.Claro! Como em tudo, faço as coisas à minha maneira.Coreografo de uma assentada uma música inteira.Preciso de estar num dia inspirado ou trabalhar para colocar-me nessa disposição e fecho-me na minha sala de ensaios sem telefone ou qualquer outra distracção e é sabido que qualquer corajoso que ouse interromper-me nesse dia corre o grave risco de não sair vivo da sala onde me encontro.

Mergulho na música obcessivamente de olhos fechados como um escritor mergulha na escrita apaixonada de um novo livro cuja redacção está a começar, sendo o culminar de muitas noites de sonho e pensamento concentrados nessa nova história que agora coloca no papel.

Coreografar é, para mim, escrever um livro sobre a página branca de uma música. A dança acrescenta uma nova e única dimensão (física, emocioal,artística) à música que aí está, no plano do invisível, esperando ser concretizada e amada através do corpo de quem dança. Assim sinto a coreografia e todo o seu obcessivo processo de elaboração. A música é uma folha em branco onde eu adivinho a dimensão mais profunda de palavras e sons que apenas existem no plano auditivo e lanço-me ao desconhecido, criando e juntando passos e movimentos que são palavras de Deus unidas pela urgência de revelar a beleza do mundo.

Numa dia, coreografo toda uma música e jamais deixo a mesma inacabada.Seria incapaz de dormir, comer ou fazer qualquer outra coisa normal. Ficaria ali, especada, continuando a coreografia no meio do trânsito, do jantar, da noite de sono, da vida!

Quando termino a coreografia, é como se despertasse de um sonho ou sono profundo e sinto-me cheia, impregnada por dentro de todas as coisas que descobri e fixei para ensinar aos alunos e aí sinto-me feliz e até nostálgica porque sei que essa viagem louca terminou.

Ensinar a coreografia será outra viagem! Igualmente cheia de prazeres mas diferente. Esse capítulo da escrita solitária e louca que é o processo de coreografar termina e o mundo fechado por um dia abre-se à luz do universo de todas as pessoas a quem eu passarei este material.

 

Estou ANSIOSA  por partilhar o que preparei para os workshopsde Lisboa e do Porto.

Aqui vão as datas , mais uma vez:

Dias 5 e 6 de Abril, na Pro-Dança, Lisboa

Dias 12 e 13 de Abril, no Total-Fitness , Porto

Ainda estou a aceitar a marcação de aulas particulares mas em horários cada vez mais limitados. Os alunos poderão contactar-me directamente através do nº de tm: 96 642 7997

Todos serão muito bem-vindos!

 

Cairo, dia 23 de Março, 2008

 

Está um “calor de ananazes” (homenagem estúpida ao “Gato Fedorento” de quem eu sou fã assumidíssima!). No Egipto, a Primavera é apenas um belo nome que anuncia a chegada das flores mas, na verdade, passa-se do Inverno para o Verão sem preliminares nem meias estações.

Saí de manhã de casa e encontrei um sol imenso e forte a banhar-me nas roupas que nunca podem ser tão frescas como eu desejaria devido às minhas tentantivas – infrutíferas- de ser um pouco menos assediada nas ruas.

Já pensei na possibilidade de me render às pressões sociais e mentais e lançar-me a uma bela “djellaba” egípcia como usam as mulheres dos meios mais pobres aqui no Cairo. Uma coisa é certa: pouparia um dinheirão em roupas e acessórios porque as “djellabas” são uma espécie de bata larga que te cobre dos pés às cabeça com mangas compridas e fechada até ao colarinho. Confesso que já pensei em render-me desta forma mas a minha imagem de “djellaba” nas ruas do Cairo é algo surreal e soa-me a um tanto cobarde, como se estivesse a ceder à forma de ser que me impõem nesta terra louca. Uma das coisas que eu menos gosto de fazer na vida é render-me numa batalha perdida – exceptuando no amor e noutras, muito poucas excepções – e, por isso, vou deixando as “djellabas” penduradas nos escaparates das milhares de lojas de ruas e lá vou tentanto cobrir-me o mais possível dentro do humanamente suportável, mesmo no meio de um calorão de morrer...

 

Estou quase de partida para Portugal e encontro—me numa imensa ansiedade. Adoro regressar a Portugal (ainda que por pouco tempo) e poder ter a gente que amo e que me conhece de verdade ao meu redor, ver o meu país, escutar português e sentir um pouco de “normalidade”.Poder guiar o meu carro até à praia, passear o cão com a minha mãe, saír com amigos, fazer um “daqueles” serões mistos de culinária indiana e amizade com a minha querida amiga e companheira de alma “Guidinha”, trabalhar revendo alunas que me conhecem de há cinco anos atrás ou mais, ver a luz de Lisboa e de Palmela, ir às compras de queijo e vinho no cume da serra perto de casa, rever os vizinhos, ler um jornal português, estar um pouco em casa, simplesmente ESTAR sem esta correria da minha vida no Cairo.

Mais uma manhã de burocracia aborrecidíssima. Passagem pelo gerente do local onde trabalho para me dar  licença (??!!!) para viajar e poder sair do país. Sem o documento assinado por ele afirmando que aceita a minha ausência de dia X até dia Y, eu não posso rever o meu passaporte (cativo no “Mogamma”) e , logicamente, viajar para fora do país.

“Mogamma”, minha segunda casa. Estou realmente a considerar a construção de uma cabana com ar condicionado às portas destas já tão familiar instituição. Poderia fazer um negócio paralelo de venda de bebidas frescas e biscoitos portugueses agora para a altura do Verão...são ideias que me passam pela cabeça depois de ir tantas vezes a este deprimento e interessante edifício onde todo o mundo e sub-mundo circulam.

Tenho o meu passaporte na mão e nem quero acreditar.

Regresso a casa e uma enorme discussão de rua (ao estilo egípcio) com um xico esperto irrompe do meio da multidão sempre em desalinho. Ele seguiu-me durante algum tempo, mandou as suas poéticas “postas de pescada” e eu ignorei mas chegou um certo ponto – o famoso ponto de rebuçado bem português – que eu não consegui conter a minha raiva e explodi. Não cheguei a dar-lhe uma valente tareia porque ele teve o bom senso de fugir mas vontade não me faltou. As peixeiras do Bulhão dar-me-ião uma orgulhosa palmada nas costas se me vissem hoje. E o mais cómico é que os insultos me saem em egípcio e no dialecto que eu fui aprendendo das ruas e do convívio com os meus músicos.Digamos  que não é a forma mais sofisticada de falar egípcio...pelo contrário, bem popularucha. A confusão na cara das pessoas quando me escutam a sacar do meu vernáculo dialecto egípcio não tem preço! Embora eu não me pareça egípcia, já existe em mim uma série de sinais que deixam os próprios egípcios a pensar se eu serei ou não desta terra.O meu aspecto físico e roupas dizem que não mas a minha forma de falar, reagir, caminhar, sentar-me e levantar-me e até a minha forma de olhar passam-lhes outra mensagem...sim, talvez seja mesmo egípcia!

Esta questão do assédio tem sido uma enorme fonte de incómodo para mim porque gosto de circular livremente por todo o lado e não aprecio faltas de respeito nem tão pouco me agrada ou alimenta a auto-estima o facto de ter homens doentes da cabeça a tomarem a liberdade de me falar como se eu fosse uma prostituta que eles estão a pagar. Não me agrada. De TODO! Sei de muitas mulheres estrangeiras que vêm cá e se encantam com toda a atenção, piropos, assédio, o facto de serem o centro das atenções dos homens e por aí mas eu não consigo ver nada de agradável em tudo isto. Gosto de passar despercebida ou apenas ser notada pelas razões certas (talento, trabalho, serviço prestado,etc) e não pelo tamanho do meu traseiro afro-latino.Também sei que estes homens são tão obcecados por sexo que assediariam uma vaca, se esta lhes passasse pela frente e isso não lisongeia por aí além as mulheres.

A repressão sexual e emocional deste povo causa todo este assédio e cria doenças mentais e físicas nestas pessoas a quem não é permitida uma vivência e expressão sãs da sua sexualidade, do amor, das sensações, do corpo. Acabo por tentar desculpar os comportamentos destes homens e destas mulheres por saber que o assédio é a única – a par com a pornografia e os constantes “affairs” com o vizinho do lado e debaixo de mesas, sempre...- forma de expressão que eles encontram para o seu desejo e sexualidade tão humanos e impossíveis de eliminar.

A religião muçulmana ou a forma como eles a pregam e passam no mundo árabe assume um papel central em toda esta questão e não são poucos os casos de hipocrisia total entre aquilo que se prega e o que se faz na realidade. Vai-se para a cama com o vizinho do lado e, em seguida, reza-se mais fervorosamente para compensar pelo acto cometido sendo que, em seguida, se critica e ofende a bailarina que se vê no “night-club” e que é, por certo, uma prostituta porque não está completamente coberta dos pés à cabeça! Sem comentários.

Tenho espectáculos hoje e até ao dia em que parto para Portugal.

Que bom! O Verão chegou mais cedo ao Cairo!!!

 

 

 

 

Cairo, dia 18 de Março, 2008

 

Estou a profissionalizar-me a um ritmo admirável em quedas com estilo em centros urbanos, nomeadamente no Cairo que é, como todos os que já visitaram a cidade sabem, um local maravilhoso para quedas de todo o estilo.

 

As ruas do Cairo são uma calamidade (mas boas para quem não pode ir ao ginásio e prefere subir e descer degraus de todas as alturas e contorcer-se entre carros e pessoas vindos de todos os lados como um enxâme de abelhas à procura do mel!), o trânsito é indescritível (imaginem um formigueiro em plena labuta numa qualquer hora de ponta e aí terão o Cairo mais ou menos a todas as horas do dia!) e é uma  cidade assustadoramente hiper populada o que, misturado com a total ausência de organização e disciplina dos egípcios, resulta num caos muito propício (pelo menos, para mim!) para quedas.

 

Deixarei toda uma panóplia de quedas possíveis nesta cidade para outra página do diário e concentrar-me-ei na minha perna mais uma vez massacrada por um valente trambulhão dado em frente à atarefada Universidade Americana do Cairo.

Lá vou eu lançado a um passo acelerado dançando sem notar entre as muitas pessoas que passam por mim e evitando os homens que tentam tocar-me como que por distracção e, sem nada que o prevesse (calçava os meus ADIDAS, passava por um troço de estrada mais ou menos nivelado...), lá vou eu de joelhos ao chão como se a Nossa Senhora de Fátima me tivesse presenteado com a sua aparição e eu, num gesto de rendição e extâse religioso, me tivesse prostrado entregando-me à sua Graça! Romântico? Lírico?

Nem por isso.

Costume dizer que, na vida como nas rendições às Nossas Senhoras deste Universo, o importante não é a queda mas sim a forma como nos levantamos depois da queda.Há quem se deixe ficar prostrado, rendido e sentindo profundamente a sua dor e há quem, como eu, tem demasiado orgulho e terror ao ridículo e, por isso, se levanta imediatamente após a queda e segue vivendo, tentanto lamber as suas próprias feridas sem que o mundo disso se aperceba.

 

Tão depressa me levantei da queda que não deu tempo a ninguém de vir ajudar-me. O lado mais cínico e realista da minha alma supõe que, mesme que ali estivesse um quarto de hora prostrada no meio da rua, ninguém viria em meu socorro, contrastando com a populaça que se reuniria se houvesse uma briga entre mulheres ou um acidente de carro...é curioso observar como os homens egípcios assediam sem qualquer respeito as mulheres na rua mas não se dignam a dar um lugar a uma mulher grávida ou idosa no metropolitano ou nem sequer olham duas vezes quando uma outra mulher está caída no meio da rua...

Este país está mesmo um caos e, no entanto, os egípcios fazem-me rir...não existe outro país no mundo – penso eu! – que tenha tantas situações engraçadas e ridículas por metro quadrado! Rio-me o tempo todo dos absurdos de um país em colisão, luta interna e de valores, um país à procura de si mesmo e do seu lugar no mundo , passado...presente e futuro.

 

Levantei-me ao estilo foguete e dirigi-me imediamente a uma farmácia que ali se encontrava para constatar que tinha as duas pernas em sangue e uma das mãos também. Já perdi a conta às pequenas cicatrizes que vou acumulando nas pernas de tantas quedas que dou...parecem um mapa assinalado com pontos estratégicos onde eu tenho de ir sem falta!

 

O melhor de tudo é que tenho espectáculos hoje à noite! Yuppiiieeee!

Existe lá algo melhor do que dançar das 17.00h até à 1.00h da manhã sem parar com duas pernas negras e ensanguentadas?!! Nada no meu vasto horizonte me parece mais apetecível e foi isso mesmo que fiz.

Apesar das minhas pobres pernas se encontrarem quase, quase fora de serviço, os espectáculos correram maravilhosamente. Não é estranho que, em circunstâncias adversas, eu acabo por dançar melhor como se a dor me inspirasse e fosse buscar aptidões e talentos escondidos que só se revelam quando os tempos são mais negros e eu penso que não aguento mais e que quero ir-me embora, estar em paz, afastada do palco e da atenção das pessoas...é nessas alturas que me surpreendo a mim mesma e danço como nunca ninguém me ensinou, desenvolvendo movimentos e uma expressão por vezes sublime que me vem de Deus, de mim...

 

Vejo o Nilo ao pôr-do-sol e sinto-me grata por esta experiência de vida.Canto em árabe enquanto me visto e preparo para actuar e até me esqueço das minhas pobres e massacradas pernas, pedindo descanso. Bebo o meu chá com leite e respiro profundamente.

 

Entre espectáculos – seis espectáculos de seguida!- leio o novo livro do autor egípcio Alaa Al Aswany.O livro chama-se CHICAGO e segue o famoso “EDIFÍCIO JACOBINO” , um “best-seller” sem precedentes dentro e fora do Egipto (não sei se está traduzido para português) a partir do qual se fez um igualmente famoso e controverso filme com o mesmo nome.

 

O livro é sobre várias personagens – egípcios- que vão estudar para Chicago e como as suas origens entram em colisão e inter-comunicação com a realidade americana pós 11 de Setembro. Continuo a admirar a coragem, clareza e honestidade deste autor que não tem “papas na língua” e fala abertamente de questões totalmente censuradas no Egipto que eu conheço de agora.

 

 

Cheguei a casa por volta das 2.00h totalmente exausta e sem forças nem para um banho tão urgente.

Um pouco de leitura, coxa da Sweetie (a gatinha mais sexy do mundo!) na minha mão e dormir, dormir, dormir... por umas looooonnnngas e ansiadas 5 horas!(Levantar cedo esta manhã!)

Li em qualquer sítio que os nossos animais de estimação são um reflexo da nossa própria imagem.Por exemplo, o nosso cão acaba por parecer-se connosco física e psicológicamente.Se esta teoria é verdadeira, eu devo ser ESTONTEANTE e irresistivelmente sexy (uau!!!) porque a minha gatinha é a coisa mais doce (daí o nome que lhe dei!), sensual, feminina, delicada, brincalhona e carinhosa que eu já vi na vida! Claro que também existe o outro lado da moeda.A “Sweetie” é super histérica (desde bebé), come que nem uma louca (mas tem um bom metabolismo) e consegue ser um”seca” quando quer alguma coisa, só desistindo de me massacrar quando obtém o objecto do seu desejo! Nesse caso, serei eu também uma histérica (conta a minha mãe que eu berrei incansavelmente durante muitos meses, logo após ter nascido e que os meus gritos impediam o meu pai de dormir, obrigando-o a usar tampões nos ouvidos para poder descansar e ir trabalhar no dia a seguir!Ooooopppsss!), comilona (sim, ADORO comida e tenho a sorte de ter um bom metabolismo!) e sou muito, muito teimosa apenas descansando quando obtenho o que quero na vida. Teoria estranha mas acabo por concordar com ela, pelo menos no que diz respeito às características mais desagradáveis da minha gatinha.

 

Escuto o último cd da Asala (cantora egípcia mais bem paga do mundo árabe).Não sendo a minha cantora preferida devido ao tom de voz que não me agrada particularmente, a Asala surpreende-me neste álbum.

Músicas de muita qualidade e interpretações de me fazer derreter o coração.Temos cantora! Descoberta tardia mas, ainda assim, válida.

Os anos de experiência notam-se e a evolução desta cantora sente-se visivelmente neste álbum. No Médio Oriente, existe o erro comum de se escutar cantores com excelentes vozes que usam as canções para exibirem as suas qualidades vocais e não o contrário. Penso que servir a nossa forma de arte – música, dança, teatro, cinema – é sempre o que se pretende de um artista. Não é a exposição e o brilharete técnico de vozes e corpos que criam arte na música como na dança mas sim o talento que traz sentimentos e alma até ao nosso público. A Asala passou, a meu ver, de uma fase de “show off” da poderosa e original voz que tem para um estado de graça e maturidade em que a voz serve belas canções e o resultado é pura emoção.

 

Só vem provar que os nossos gostos evoluem e só temos a ganhar em estarmos abertos a novos talentos.Sempre disse que não gostava de Asala e agora dou comigo a escutar este cd constantemente e a cantar as músicas de que mais gosto.Vivendo e aprendendo e NUNCA dizendo NUNCA!

 

 

 

 

 

 

 

 

Cairo, dia 13 de Março, 2008

 

Hoje é dia de espectáculos mas não posso adiar uma visita ao meu querido Mahmoud (Reda), nem mais um dia...embora vivamos os dois no Cairo e ele seja uma das pessoas mais próximas que aqui tenho (um misto de professor, avô, amigo, companheiro de alma e profissão, companheiro de anedotas e conversas tolas que só temos com quem realmente amamos, entre muitas outras coisas especiais que não tenho palavras para descrever...) os meus dias e noites seguem-se uns aos outros repletos de tarefas, trabalho, necessidade de descanso e algum isolamento no meio deste quotidiano hiper populado e eu acabo por não poder vê-lo há já dois meses ou mais!Que vergonha, meu Deus!

A questão com o Mahmoud é que não posso visitá-lo como a um amigo normal...uma visita ao Mahmoud significa um dia inteiro com ele, sendo feliz e partilhando as nossas danças, o que ele tem feito de novo (com 78 anos, segue criando ininterruptamente e mantém uma frescura e um entusiasmo na criação artística que eu não vejo nos artistas da minha idade com toda uma vida pela frente!), o que eu tenho de novo para mostrar-lhe, as notícias que temos para trocar acerca das nossas vidas, fotografias de viagens que ele tem feito um pouco por todo o mundo ensinando o seu estilo genial de dança e espalhando a verdadeira generosidade de um artista!

       Um à parte: Enquanto estou a escrever estas linhas, estou a escutar a maravilhosa canção "Quadras" interpretada pelo Camané (um dos meus fadistas preferidos desta geração).Esta canção encontra-se no álbum da banda sonora do filme FADOS do realizador Carlos Saura. Este é o terceiro filme da trilogia (Tango, Flamenco, Fado) e é um filme que MUITO me emocionou e que recomendo a quem ame música.

 

Retomando a minha visita ao Mahmoud...

Depois de um abraço cheio de saudades e sentimento de culpa por não ter vindo visitá-lo antes, seguimos para o estúdio de dança onde ele me mostrou duas novas coreografias que já ensinou nos últimos workshops que ministrou na África do Sul. Maravilhosas, como sempre!

O que mais me encanta no Mahmoud é essa capacidade de ser humilde que só os grandes possuem. Com todo o genial percurso que ele carrega às costas, ele segue mostrando-me todos os passos das novas coreografias e o olhar de dúvida e insegurança na sua cara deixa-me totalmente atónita..."Como é possível?"

Ele pergunta-me se eu gostei e pede-me sugestões (???!!!)...não posso deixar de me surpreender e admirá-lo ainda mais e, timidamente, rio e dou-lhe a minha opinião que ele leva tão a sério que me faz sentir um Einstein...

 

Como é costume, ele pede-me para eu própria memorizar parte de uma das coreografias e interpretá-la para ele ver e filmar...é um costume nosso! É embaraçoso admitir o número de vídeos que ele possui de mim, Joana, em fato de treino e pior ensaiando, praticando movimentos, executando coreografias dele ou minhas, numa série muito diversificada de circunstâncias....e um vídeo onde estamos os dois improvisando sobre dança núbia...uau! Quantas memórias e quantas saudades tenho dele, sempre!

 

Como tinha trabalho, só pude ficar com ele até às tres da tarde mas prometi regressar muito brevemente e sei que ele levou a promessa a sério.

O melhor na vida é conhecer gente boa. Disso eu tenho a certeza.

Admiro artistas e o seu trabalho encanta e dá sentido à minha vida, não me imagino sem bons escritores, pintores, cantores, actores e bailarinos...além de ser artista, eu respiro arte e não conseguiria (?) viver sem ela mas, acima de tudo, encanta-me a Humanidade de algumas pessoas e isso é o que mais me enche a alma.O Mahmoud é uma dessas pessoas que me preenche.

A qualidade de um ser humano é sempre mais importante, para mim, do que a qualidade de um artista e, no fundo, vejo-as como factores inter-relacionados, embora eu saiba que a vida real não comtempla esta minha teoria de que um genial artista será, logicamente, um genial e bom ser humano! Infelizmente, não acontece assim...

 

 Noite cheia de espectáculos, começando às 17.00h e terminando à 1h da manhã. Atribulações em palco (incluindo soutiens que saltaram do meu exausto corpinho variadíssimas vezes, muito mais do que as vezes permitidas por lei!) e um público mais ou menos adormecido (japoneses, chineses e árabes!).

       Regresso a casa num táxi que insistia em cantar o tempo todo completamente desafinado mas com muito sentimento! Aguentei e cantei com ele...que fazer?

 

 

 

 

Cairo, dia 8 de Março, 2008

 

Uma coisa é certa e mais que sabida: a vida é totalmente imprevisível!

Regressei do Sinai com uma energia renovadíssima e convencida de que o palco me iria parecer totalmente novo e excitante e, no entanto, o regresso ao trabalho não correu como previra, bem pelo contrário...

 

Substituição de um dos meus "terríveis" músicos, o órgão. Eu pensei que seria impossível existir à face do Universo – incluindo planeta terra, planetas conhecidos pelo ser humano e asteróides – um órgão pior do que o meu mas, como em muitas outras questões existenciais, enganei-me.Sim, é possível. Sim, foi possível e eu tentei ultrapassar o trauma da má música a entrar-me pelos ouvidos e pela alma mas foi difícil abstraír-me dessa realidade de que é feita, afinal, o meu trabalho!

 

12.00h – Espectáculos de manhã! Espera de duas horas no camarim! Graças a Deus pelos livros que sempre carrego comigo e que assustam tremendamente os egípcios. Eu aceito o facto de que sou totalmente viciada na leitura. É raro haver um momento que eu esteja sem um livro na mão e jamais páro à espera do que quer que seja sem estar a ler. Compreendo que possa parecer demasiado a quem vê esta obcessão do lado de fora do palco mas que fazer?? Existem aqueles que fumam, comem e consomem bebidas alcoólicas em demasia, drogam-se, bebem cafés atrás de cafés, sei lá...uma série de vícios dos quais eu jamais fui adepta mas refugio-me nos livros e assim suporto esta realidade dura e tão árdua de compreender que me rodeia.

Os índices de leitura neste país devem ser algo irrisório porque não se vê ninguém a ler, excepto alguns estrangeiros que, como eu, deambulam por esta cidade sempre na marginalidade, em todos os sentidos.

 

Tenho a certeza que os meus comparsas egípcios não estranhariam tanto se eu andasse de haxixe à tira-colo mas um livro na mão é demasiado para a compreensão deles e eu suspeito que existem diálogos debaixo de mesas onde eu e os meus "estranhos" livros são tema principal de conversa.

"Ela será espia e trabalhará para os israelitas?!" – Sussurram eles, espreitando para as capas dos livros que carrego comigo.

"Ouvi dizer que ela tem uma câmara com ligação directa aos escritórios centrais do FBI dentro dos livros...consta que, no outro dia..." E por aí segue...

 

14.00h  - Bacalhaus secos para o almoço.

Depois de duas horas a secar no meu acalorado camarim, fui recebida por um agradável mas totalmente apático grupo de estrangeiros que vêm, quase sempre, para comer, comer e comer e não têm interesse nenhum por qualquer actividade de dança ou musical que não inclua o som dos talheres a tilintarem uns nos outros em feliz azáfama.

Estes especáculos de hora de almoço são, para mim e para os músicos (suspeito), um espécie de ensaio em que nos pagam. Não existe o ambiente, a disposição nem o tipo de público que contribuam para um bom espectáculo.

 

Para além de estar em dia NÃO, estar a sofrer horrores com as dores e os inchaços da minha menstruação e ter de sorrir para uma audiência que olha para mim como se eu fosse uma extra-terrestre que lhes caiu no colo sem aviso prévio, a qualidade do som no palco é deplorável –como sempre! – e os músicos estão a dormir e, no entanto, acordados e mexendo os dedos pousados nos seus instrumentos (musicais!!!). Sinto-me como uma da figuras de cera do Museu Madame Tussaud, em Inglaterra. Talvez o David Beckam, sim, sou o David Beckam feito de cera e o meu sorriso forçado é prova indelével disso mesmo.

 

Existe um engraçado que me tenta agarrar o monstruoso traseiro afro-latino que carrego comigo desde a nascença quando tiro fotografias com o público e essa é das experiências mais irritantes para mim que não gosto, minimamente, de intimidades físicas com cavalheiros que não conheço de lado nenhum mas que, encorajados pela ignorância imensa deste mundo – pensam que, por ser bailarina, sou propriedade do Estado como um hospital para o povo, sempre disponível e aberto a servir os utentes. Engana-se!Como se engana! Não lhe bato mas fico perto disso.

 

14.30h - A "tannoura" actua entre os meus dois actos.

A "tannoura" é  uma espécie de dança inspirada na tradição dos sufis em que o "entertainer"gira sobre si mesmo manipulando uma saia rodada (esta descrição não está lá muito famosa...ui..."manipulando uma saia rodada??!!" Soa-me à descrição de um desfile de orgulho gay!) multicolorida que , através do movimento e dos padrões de cores nela bordados, cria efeitos visuais interessantes. Eu nunca encontrei fascínio nesta faceta do folclore egípcio mas os estrangeiros que aqui vêm parecem ADORAR!

A "tannoura" ou o rapaz que a apresenta esfoça-se para acordar os esfomeados turistas que vieram visitar-nos mas sem êxito!Nada os consegue estimular mais do que uma boa perna de frango! Ele grunhe, grita, ri às gargalhadas, fica quase nú e desfaz-se em truques de algibeira mas o efeito é sempre o mesmo: apatia.

Cabe-me a mim continuar o espectáculo.

 

15.00h- Vou almoçar a um café perto do meu trabalho. Como hoje estou em dia NÃO, decidi vestir-me o mais parecida possível com um saco de batatas para não ser assediada de segundo a segundo na rua. Imaginem a cena:

Cabelo apanhado com a minha nova franja por mim cortada em desalinho e os meus enormes óculos de sol ocultando os olhos que, como todos os árabes sabem, são o primeiro e mais forte veículo de contacto entre homens e mulheres e sedução.

Ténis ADIDAS (passo a publicidade) azuis e cinzentos (a precisarem de uma boa lavagem), calças de ganga largas e cinturão largo. T-shirt oferecida pela minha querida avozinha (olá, avó! Adoro-te e a t-shirt também!) em cor verde alface com a figura de uma vaca gordíssima a chupar duas flores do campo.

Existe imagem menos erótica do que isto?! Se bem que a vaca a chupar as flores do campo pode apelar sexualmente a alguns tarados ou criaturas com imaginação fértil como eu mas... será que existe algo, um por cento, de erotismo nesta fatiota???!!! Meu Deus! A táctica não resultou. Fui assediada da mesma forma, como todos os dias do ano...penso que foi a vaca na t-shirt que despertou a líbido doentia dos transeuntes...ou seriam os ténis ADIDAS??? Não sei. Se estes homens do Egipto assistissem a uma matança do porco no Alentejo – como eu assisti muitas vezes durante a minha infância de herança camponesa – teriam um orgasmo colectivo ao avistar o presunto, isto é, a perna do porco! É um fenómeno que não compreendo totalmente, por mais que me esforce. Sei que a repressão religiosa, social, política, mental e emocional a que os árabes são submetidos pelos seus governos e as guerras a despontarem em todo o lado pelo Médio Oriente criam uma espécie de loucura colectiva mas, ainda assim, deparando-me com o assédio omnipresente, não sei como é possível que esta gente tenha energia e cabeça para se preocuparem mais com o traseiro alheio do que com as suas próprias – maioritariamente vazias - vidas.

 

Como uma sopa e salada banhados, no fim, pelo meu "chai latté" aromatizado com caramelo.

 

16.30h – Espectáculos da tarde. Ainda com o almoço na barriga, danço para mais dois grupos de turistas desinteressados mas filmando e fotografando cada gesto meu. Tento não desfalecer dos "flashes" e das câmaras apontadas para a minha cara a centímetros de distância e, para qualquer lado que me vire, existe uma lente a tentar sondar nos meus dentes o que comi no almoço ou prescrutanto a profundidade da minha alma em tentativas insistentes de me entrar pelos olhos adentro...

Sobrevivo à experiência, mais ou menos intacta.

 

19.00h – Primeiros dois espectáculos da noite. E já lá vão quatro espectáculos...

Público misto, estrangeiros, árabes e egípcios. Nada de extraordinário mas muito mais estimulante do que os espectáculos/ensaios do dia inteiro.

Dois cavalheiros egípcios seguem enganando-se no caminho para a casa de banho e batem-me à porta do camarim insistentemente enquanto me visto e dispo. Saco do meu sentido de humor e da minha curta paciência e consigo rir-me, apesar da minha má disposição e cansaço.

 

22.00h – Últimos dois espectáculos. Talvez devido ao cansaço, dancei razoavelmente uma música da Warda e outra da Om Kolthoum. Muitos egípcios na audiência, o que sempre SEMPRE ajuda. Por mais contrariedades que os egípcios tenham, ninguém como eles sabe apreciar dança oriental e participar emocionalmente num espectáculo.Sempre que existem egípcios na audiência, rejubilo e sei que o meu trabalho será inspirado e feliz.

 

24.00h – Regresso a casa estoirada e recorro à comida chinesa para um jantar faminto em que devoro metade do menu!!! (estou a exagerar!).

Tento ler um pouco mas os olhos querem fechar-se e eu deixo. A minha "Sweetie" está ao meu lado e fala comigo.Agarro-lhe a coxa (já referi que a minha gatinha é a gatinha mais "sexy" do mundo??!) e ela ronrrona. Adormeço de coxa na mão.Existe melhor maneira de adormecer?!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cairo, dia 18 de Fevereiro, 2008

 

O frio regressou ao Cairo. Sendo uma pessoa de Verão e já estando numa disposição totalmente primaveril, este foi um choque que me apanhou desprevenida.

 

A lei que saiu recentemente permitindo às bailarinas estrangeiras o trabalho num só local tem tomado grande parte da minha energia mental.

Isto não é só descriminação e injustiça como traz outros problemas agregados que tornam a vida das bailarinas estrangeiras ainda mais difícil do que já é sem estas leis absurdas que só os egípcios com a a sua imensa imaginação e tolice podem conceber.

 

O mercado é muito pequeno e competitivo.Essa mesma competição é desleal e rege-se por corrupção, prostituição e pela rede de "conhecimentos" sociais e "PESSOAIS" (pessoais no sentido de ...cama...caminha...e tal...entendem??!!!) e não pelo valor que cada um possa acrescentar ao campo das artes ou da dança em concreto. Nem sequer se trata do rendimento financeiro que uma bailarina possa trazer a um "nightclub" ou a qualquer local de espectáculos pois os rendimentos destes locais vêm, normalmente, de outras fontes muito mais obscuras e rentáveis. Trata-se de simples caos.

 

O facto de apenas podermos trabalhar num só local frustra as perspectivas de crescimento de carreira e limita muito o nosso rendimento ...especificamente para quem vive exclusivamente da dança e não acrescenta outras funções que não pertencem a este campo, como faz a esmagadora maioria das bailarinas árabes. O que nos pagam num só local não chega para vivermos confortavelmente e continuarmos a custear todas as despesas relativas ao desenvolvimento do nosso projecto profissional (se este existir, claro!).

Trajes novos, maquilhagem, cabeleireiro, pedicure e manicure, novos e melhores músicos para a nossa orquestra, ensaios, dinheiro extra para bailarinos e adereços, trajes dos músicos da orquestra, comissões para estes e aqueles que nos vão arranjando trabalho, ginásio e outros cuidados a ter com o corpo e com a pele, etc, etc...um manancial de aspectos a serem cuidados TODOS OS DIAS e que extenuam até um Tarzan Taborda mas que , para nós, têm de ser cuidados básicos e normais. A exaustão torna-se a nossa companheira mais chegada. Já não me recordo da última vez em que não me senti exausta!!!

 

Dou voltas à cabeça tentanto encontrar uma solução para este problema e sei que a vou encontrar. Embora trabalhe praticamente todos os dias – 5 dias por mês de folga! – o que se ganha não chega para cobrir todas as despesas inerentes a este trabalho e ainda cobrir o aluguer da casa, comida, roupa, todas as coisas normais que gente normal – como eu! – necessita!

 

Penso naquela máxima que diz "Deus fecha uma porta mas abre uma janela", ou algo assim do género...para algum alento, esperança. Sei que a solução virá de repente, como um relâmpago inesperado! Virá!

 

23.00h – Hoje apenas fiz um espectáculo! Estranho...Já não estou habituada. Por outro lado, toda a minha energia e disponibilidade mental se concentra num só encontro com o público e isso traz-me inspiração, presença total e calma para dar o meu melhor!

 

2.00h – Cansada. Estou na cama e a minha gatinha deita-se ao meu lado, pedindo festas. Este é o mau anjo, sem dúvida. Além de ser a gatinha mais "sexy", linda e carinhosa do mundo (além de histérica, tenho de admitir!), ela é a minha grande fonte de paz, carinho e pureza. Simplesmente o meu anjo.

Adormeço com a minha mão no peito delicado da gatinha e ela abraça a minha mão com as patas, ronrronando e semi-cerrando os olhos de coruja enquanto me vê adormecer. A isto se chama paz.

 

 

Cairo, dia 19 de Fevereiro, 2008

 

Acordei para mais um dia de frio extremo.Já não estava mentalizada para isto, confesso...as minhas roupas de Primavera já estavam  sair cá para fora e a minha mente já estava completamente imbuída pelo sonho do sol que aí vem...

 

O trânsito do Cairo está a tomar proporções totalmente assustadoras!

Não existe hora, local ou circunstância durante as quais não nos encotremos parados no trânsito.Os taxistas perdem a paciência mais do que é habitual e as pessoas já não sabem como chegar onde pretendem sem um atraso de, pelo menos, uma ou duas horas.

Graças a Deus pelos meus livros que andam sempre comigo na carteira e m salvam, de certa forma, dessa sensação frustrante que é a perda de tempo...tão comum por aqui...

 

Continuo à procura de apartamente onde ficar enquanto a minha casa se termina. Com a presença dos estrangeiros e a inflação, os preços aumentaram brutalmente e não se encontram casas habitáveis pelos preços justos do Egipto tendo em conta que uma pessoa , como eu, ganha em libras egípcias sob o "standard"dos egípcios. Muito difícil! Olham para mim, sou estrangeira! Pensam...estrangeira: RICA. E puxam, puxam, puxam...é demais.

 

Hoje vi alguns apartamentos novos e bonitos mas muito longe do centro da cidade onde grande parte do meu trabalho e vida social se desenvolvem.

Tenho de achar um apartamente urgentemente. Já não aguento ver todas as minhas coisinhas em caixas...

 

Também estou a organizar uns dias de folga! FOLGA! Não sei o que isso significa há muito, muito tempo...meu Deus! A última vez que tirei umas férias foi há mais de quatro anos atrás e, desde essa altura, não tenho feito senão trabalhar, viajar, procurar, lutar, programar, atingir, pensar e continuar a lutar...uffff! Estou exausta.O meu cérebro já não está a funcionar a cem por cento.

O facto de todo este tempo ter andando por países árabes também contribui para o cansaço. É o facto do trabalho em si, da busca, da luta e, principalmente, o facto de tudo se desenrolar numa cultura ou sociedades (porque cada país árabe é uma sociedade diferente e específica em muitos aspectos) tão diferentes e contraditórias à minha, a religião ou a forma como é vivida e transmitida nestes países, a mentalidade da idade da pedra...etc...tudo isso e a convivência com o absurdo e a corrupção troueram-me um cansaço que desconhecia até aqui chegar. Claro que também me trouxeram força, conhecimento, capacidades de sobrevivência, diplomacia (ainda tenho muito que trabalhar nesta área! Um desastre!) e experiência profissional e de vida que jamais poderia acumular noutro lugar mais "normal" e concordante com aquilo que sou e em que acredito mas, de qualquer forma, estou muito, muito cansada...

 

Tenho de encontrar um bom hotel onde permitam a estadia da minha linda sereia "Sweetie" (a minha gatinha).

 

22.00h – Belo espectáculo. Por vezes, a exaustão acrescenta aspectos positivos à dança e à pessoa em si mesma que pára de se preoupar em "fazer bem" e "fazer MAIS" e apenas se deixa levar pela música. Assim foi esta noite.

Um grupo de bailarinas de Inglaterra veio ver-me e ficaram todas em estado de choque, não cheguei a perceber se foi por terem ficado positivamente surpreendidas comigo ou por terem visto que eu estava "para lá de Bagdad" e tivessem suspeitado do uso óbvio de substâncias psicotrópicas. Fiquei sem saber.

Apenas vio grupo embasbacado a olhar para mim com uma atenção fora do normal e com cara de quem viu um extra-terrestre! Como não me conhecem, pode ser que tenham suspeitado do meu estranho estado psicológico, navegando mentalmente entre este mundo e o outro. Foi um belo espectáculo, devo dizer.

 

A moda de fumar haxixe (sem falar nos mais que comuns cigarros que os egípcios fumam às toneladas!) sempre esteve presente no Egipto mas agora está a espalhar-se a uma dimensão assustadora. Penso que as dificuldades pelas quais o país passa, a insegurança material , a injustiça social,as dificuldades crescentes do dia-a-dia contribuem em muito para este fenómeno. Ricos e pobres de todas as esferas da sociedade estão a agarrar-se ao haxixe e a outras substâncias igualmente ou ainda mais nocivas para esquecerem os problemas, as frustrações e a impossibilidade de um futuro próximo melhor. É muito triste. Tenho vários amigos meus – egípcios, libaneses e sírios – que fumam entre tres e quatro cigarros de haxixe por dia...no mínimo. E é socialmente aceite...não é agradável aos olhos de ninguém mas pressupõem-se que todos fumam publicamente ou na intimidade dos seus lares, por isso...torna-se comum.

 

Eu sugiro sempre a esses amigos que fumam para dançarem em vez de se auto-destruirem. É uma forma construtiva de fugir à realidade que nos circunda.

Eles riem-se.

 

 

Cairo, dia 22 de Fevereiro, 2008

 

Dia de folga. Finalmente! Depois de mais de tres semanas sem um dia de folga, esta pausa soube-me muito bem.

 

Acordei, tomei o meu chá e dirigir-me à minha livraria preferida para um pequeno-almoço nas calmas rodeada de livros coloridos, interessantes, cheios de histórias e curiosidades e tantos mundos. Sempre me senti bem rodeada de livros e é do senso comum que esta estranha bailarina anda sempre com livros atrás e lê compulsivamente. Tenho noção de que é um escape. Em vez de fumar, leio. Melhor, não é?

 

Fui até ao "hammam maghebi" (banho marroquino) perto de casa pela segunda vez...já estava a precisar. Adoro. Não só por razões estéticas e de saúde mas porque entro num mundo à parte onde só eu e o meu bem-estar interessam. Muito bom.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cairo, dia 12 de Fevereiro, 2008

 

Andar de metro no Cairo é sempre uma aventura imprevisível... existem carruagens exclusivas para mulheres até determinada hora da noite mas nem sempre esta exclusividade é respeitada, para minha profunda irritação que olho os "chicos espertos" que se entranham entre as mulheres como se pudesse fulminá-los com um só olhar. O mais curioso é que eu sou a única que parece estar incomodada quando uma destas personagens se entranha no meio do mulherio. No meio de uma multitão de muçulmanos acostumados à segregação dos sexos, eu apeço ser a mais puritana de todos! Estranho... ou nem tanto. Sei como estes senhores se entranham para ter a oportunidade mórbida – na minha opinião – de se enconstar a um corpo de mulher ou simplesmente olhar para ela/s  com a mente reprimida e doente que aqui sempre vejo... Sem comentários.

 

Concentro-me no livro que anda sempre comigo para estas viagens, outras que tais e tantos momentos de espera que aqui nos são presenteados e tento ignorar  o que está à minha volta. As mulheres observam-me atentamente e comentam em sussurros coisas que jamais poderei saber mas que posso presumir. Não me importo.Já me habituei a ser observada vinte e quatro horas por dia e a ter pessoas constantemente a comentar sobre mim nas minhas costas, frente e lados e talvez por cima e por baixo!

 

11.00h – Mogama. Renovação do meu passaporte.Mais uma visita aborrecida à minha "segunda casa" aqui no Cairo....querido Mogama!

 

13.00h – Reunião com o chefe da minha orquestra num café da baixa da cidade. Eu sou a única mulher no café, como de costume. Também já não me afecta.

Sentamo-nos calmamente.Ele, porque está sempre relaxado como a maioria dos egípcios e eu, porque estou exausta.

Ele pede um café turco – não consigo habituar-me ao aroma forte deste café! – e eu peço um "sahlab", uma bebida muito doce e espessa composta de um líquido branco, cremoso com leite e outros ingredientes e salpicado de passas, côco e frutos secos. Trouxeram-me a bebida sem os frutos secos! Economia assim o obriga.

Falamos dos próximos passos a dar no trabalho e na triste lei que acaba de sair e permite que as bailarinas estrangeiras actuem com contrato APENAS num local de espectáculo e não em vários como acontece com as egípcias. Lá se vai o meu contrato no Grand Hyatt ou no Sheraton...tenho de me manter no local onde os meus papéis de trabalho são emitidos...frustração. Aqui, nunca se sabe.O Governo é composto por cabeças ocas e corruptas e o bom senso, a noção de justiça, pragmatismo ou direitos humanos é totalmente inexistente.

Depois da frustração, vem um alento bem de dentro de mim...ainda podemos fazer casamentos, festas privadas, aceitar os convites que tenho para o Dubai e Bahrein, que mais??? Depois do susto, vem sempre um momento de reflexão em que Deus nos suspira ao ouvido que sim...existem várias saídas e muitas delas poderão ainda ser melhores do que pensamos ou esperamos...sou uma optimista por natureza e fecho os olhos, tentanto redefinir tudo o que estou aqui a fazer. O meu nome continua a subir no mercado e dou graças a Deus por isso mas os incentivos são nulos...se quero desenvolver o meu trabalho e fazer melhor, tudo tem de sair do meu coração, do meu cérebro, do meu bolso, do meu investimento de tempo e total...sem remuneração, sem grandes compensações ou ajudas de qualquer parte. É duro.

 

13.30h – O sol brilha e encadeia-me naquela mesa de café. O chefe da orquestra fala comigo mas eu não estou a ouvir. Ele sabe que eu não estou satisfeita com os músicos que ele me conseguiu e sofro todas as noites com a má música que eles para mim produzem. Ele não quer perder a sua comissão e o seu ganha-pão.Mente-me , como sempre. E eu finjo escutar e concordar...até acreditar nas suas palavras gastas, ocas e irritantemente óbvias, cheias de relatos falsos e um "diz que disse" que não nos leva a lado nenhum.

 

16.00h – Estou em casa e preparo-me para mais um dia de espectáculos. Não me apetece sair...agarrar-me a um livro e esquecer o mundo à minha volta é o meu maior sonho, neste preciso momento. Tem de ser...lá vou eu...

 

Cairo, dia 11 de Fevereiro, 2008

 

Dia de folga. Fazendo juz ao meu crescente vício de frequentat SPAS e todos os locais onde ofereçam tratamentos de corpo, face e alma, lá fui experimentar um dos muitos "hammam maghrebi" (banhos marroquinos) existentes no Cairo.

 

As mulheres  marroquinas são famosas pelos seus truques e sabedoria mágica relativa aos tratamentos de beleza que acumulam sempre a função de descarga energética e protecção contra o "mau olhado" e outras energias que não sejam propícias ao corpo e à alma. Diz-se por aqui que as mulheres marroquinas colocal um pó mágico (previamente preparado pelos muitos feiticeiros "à la carte" existentes em Marrocos que preparam mezinhas de todo o tipo em troca de uns dinheiros que lhes são dados subrepticiamente) nos olhos, misturado com o "khol" ou "Khajal" (pasta negra composto por pigmento negro, óleos e ervas que árabes e indianos colocam no contorno interior dos olhos com a finalidade de os embelezar e eliminar impurezas) que colocam nos olhos.

 

As mulheres de Marrocos têm essa fama de sedutoras ferrenhas, mais do que qualquer outra mulher no mundo árabe...o "hammam" é apenas um aperitivo que é suposto cuidar do corpo e preparar os corpos e as disposições para o amor...é também sabido que as quintas-feiras são sempre os dias mais atarefados para os SPAS, banhos públicos e centros de beleza pois é o dia de preparação para a grande noite de amor que nessa mesma quinta-feira, supostamente, acontecerá entre marido e mulher, amantes, namorados e todo o tipo indescritível de parcerias que aqui existem, relacionando-se debaixo da mesa, sempre às escondidas e longe dos olhos alheios...o amor e o sexo são tabus nesta sociedade mas, apesar disso, as preparações são feitas nessas quintas-feiras de fogo e suspiros...

 

Fui até ao banho marroquino e entrei nesse outro mundo que nem sequer é egípcio mas...marroquino! Os aromas são diferentes, as caras das mulheres também, as roupas, a energia do local...tudo muito mais velado, escuro, silencioso e sensual do que os congéneres egípcios. Há algo de ingenuidade e leveza na sedução egípcia mas essas características não se aplicam à pesada e carnal aura dos banhos marroquinos e das mulheres que os executam.

 

Foi-me oferecido chá marroquino, fui levada até à sala onde teria de deixar as minhas roupas e depois conduzida à sala do banho turco forrada com belos azulejos de Marrocos e com um cheiro intenso a ervas.

Uma senhora apresentou-se em francês (segunda língua oficial em Marrocos, tal como na Tunísia e no Líbano) e perguntou-me de onde eu era.

Respondi e deitei-me, relaxada e feliz na pedra forrada a azulejos. Ela esfoleou-me a pele com uma luva própria para o efeito, untou-me com um sabão especial composto de ervas, óleas e "henna" e deixou-me uns dez minutos a ferver –literalmente- no vapor daquela sala colorida. Adormeci. Do cançaso, da necessidade de relaxar e "deixar-me ir", devido ao calor. Sei que adormeci.

 

Ela despertou-me e lavou-me como se eu fosse um bebé. Uma sensação estranha.

Em seguida, untou-me novamente com uma máscara que cheirava a paraíso! Uau! Cara, corpo e cabelos envolvidos pelo aroma de mil flores...uma sensação tremenda de frescura e bem-estar percorreu-me todo o corpo e adormeci mais uma vez.Ummmmm....preocupante!

 

O tratamento terminou com um duche e uma leve massagem com óleo essencial de rosas. Simplesmente maravilhoso. Como hoje não tive espectáculos, a minha pele pôde descansar da maquilhagem e dos brilhantes e pós e toda a artilharia pesada que é necessária para compôr o "personagem" e lançar-me ao palco.

 

 

 

 

 

 

Cairo, 5 de Fevereiro, 2008

 

Dificuldades com os meus músicos. Fiz mais um ensaio e perdi a paciência para seguir corrigindo erros e falta de inteligência e talento.

A querida Susanita – jornalista portuguesa que está a elaborar um trabalho sobre mim para a "Artes Magazine " ou algo parecido...sorry, Susanita! Esqueci-me do nome da revista! Perdoa a minha cabeça de vento...) – veio comigo a um ensaio com o "núcleo duro" da minha orquestra. É sabido que eu não permite assistência em ensaios de qualquer espécie pois é um trabalho íntimo de preparação e bastidores que fermenta aquilo que, mais tarde, serviremos ao público. Quando ensaio, mesmo sem os meus músicos, é sabido que apenas a minha mãe pode assistir pois é a única pessoa a quem o permito. De resto, sinto que esse é um trabalho muito meu e solitário.

 

Abri uma excepção para a Susana e, embora não lhe tenha dado a atenção que gostaria, fico curiosa de saber que notas ela tomou e o que dali sairá...ela observou como eu praticamente não me movo e tomo notas, dou indicações e correcções, mais maestro de orquestra do que bailarina.

Entre chás, cafés e muito cigarros fumados pelos músicos, chegámos a um bom número de músicas ensaiadas e fiquei satisfeita com o ensaio, dentro das possibilidades dos meus músicos.

 

O chefe da orquestra – que tem a mania que "sabe" do assunto, presenteou-nos com alguns passos de dança de morrer a rir – e os músicos ficaram, como sempre, surpreendidos com as indicações que fui dando. Não é suposto eu saber mais de música árabe do que eles que aqui nasceram e trabalham há séculos. Coisas que acontecem.

 

Saímos do ensaio para o meio de um Cairo cada vez mais populado e com mais trânsito...isto começa a preocupar-me...o trânsito está absolutamente insuportável, além do assédio sexual que se expandiu em dimensões assustadoras...

 

A Susana também me foi ver dançar, embora com a orquestra mais pequena num palco pequenino e intimista. É bom ter alguém bonito da minha terra na audiência.

 

Recordo uma ocasião em que a equipa do Benfica veio até aos "Faraós do Nilo" sem saberem que a bailarina era eu e eu os surpreendi pegando no microfone e dando-lhes as boas-vindas em português. Foi um choque para eles e para mim que comecei a sentir as lágrimas a quererem sair como uma súbita tempestade vinda dos corredores mais escondidos da minha alma e dos meus olhos.

 

Os músicos olhavam-me com estranheza – para eles eu sou a bailarina, patroa e artista que fala árabe e está inserida na cultura e na vida que eles carregam diariamente – e os jogadores do Benfica ficaram em estado de choque ao ver a bailarina (que publiciam como sendo egípcia, embora eu tente desmentir os boatos!) , de repente, falar em português e revelar a sua identidade!

Cena de filme!

 

A Susana filmou um pouco da dança e observou-me num dia em que a audiência era totalmente estrangeira e se assemelhava a um grupo de múmias em exposição no Museu Egípcio com um senhor particularmente parecido com o  faraó "Tutan Khamon"...terrível...pobre Susana...teve azar com a noite em que me veio ver.

 

O público contribui MUITO para a disposição da bailarina e determina o sentimento, a vontade de abrir e dar o seu mundo...esta noite foi terrível mas fiquei feliz por ter a Susana ao pé de mim. Serei assim tão frágil??? Oh, God...surpreendo-me com a minha própria fragilidade.

 

Cairo, dia 8 de Fevereiro, 2008

 

Acordei às oito da manhã  fui correr novamente na marginal de Maadi, em plena hora de ponta no Cairo (agora, parece-me que todas as horas são de "ponta" no Cairo! Trânsito infernal a todas as horas em todos os locais!). Depois de ter inspirado suficiente fumo de tubo de escape, regressei a casa um pouco mais relaxada e com os músculos já a acusarem o ressentimento da minha loucura.

 

Preparei os meus trajes para a noite de hoje. Maquilhagem, acessórios, trajes, "sagats", véus e bastão além da caixinha SOS de costura, os "Kleenex", as toalhitas de bebé, os perfumes e os óleos e outros detalhes que devem sempre constar na mala de uma bailarina que se preze...

 

Maquilhei-me, saí de casa com a mala e viajei calmamente a caminho do trabalho assistindo a um "daqueles" pôres do sol que só assisti aqui no Cairo...a cidade tem destas coisas...no meio da sujidade, poluição, ruído e fealdade,existem sempre apontamentos inesperados de extrema beleza.É  mais um dos encantos desta cidade complexa...as várias flores de lótus semi ocultas no meio da lama...eu busco sempre as "flores de lótus". Como o meu amigo Mahmoud (Reda) sempre me diz: "Eu busco a beleza à minha volta.É essa a minha função como artista. Buscar a beleza e transmiti-la através da minha dança.Se eu procurar a fealdade, a pobreza e a sujidade, vou encontrá-las com toda a certeza mas não me servirão ou inspirarão para nada...por isso, busco sempre a beleza e encontro-a sempre." Meu querido amigo e avôzinho, Mahmoud!

 Há quanto tempo não o vou visitar! Perdoa-me , Mahmoud! Sempre a correr...

Entre dois espectáculos, tenho tempo para beber o meu chá com leite e ler dois dos livros que trouxe comigo e que agora me estão a fascinar: o repetente "Grandmother´s Secrets" de Rosina-Fawzia Al- Rawi (é a terceira vez que estou a ler este livro e encontro sempre algo valioso e refrescante nele) e o romance "The Other Boleyn Girl" de Philipa Gregory sobre uma personagem verídica chamada Mary Boleyn que viveu na corte de Henrique VIII.

 

Desde que me mudei para o Egipto, leio quase sempre em inglês.Bom para o meu inglês, mau para o meu português que está mais enferrujado que nunca!

Não se pode ter tudo!

 

Tremenda luta com o chefe da orquestra!Mais uma vez, os músicos tiveram uma prestração terrível que me deixa a ponto de rebentar de fúria...apesar dos ensaios que pago para os aperfeiçoar e corrigir em repertório que deveriam conhecer mil vezes melhor do que eu, continuam a fazer os meus erros e a apresentarem música da pior qualidade...oh, God! Tenho de mudar de orquestra! Urgente!

"Passei-me da pinha", esta noite...MESMO!

 

Regressei a casa frustrada e nervosa mas com a nítida resolução da urgente mudança de orquestra! Dançar com uma má orquestra é como comer comida estragada...não se consegue!

 

 

 

Cairo, dia 5 de Fevereiro, 2008

 

Hoje foi um dia magnífico.

Acordei anormalmente cedo, provavelmente devido ao "stress" das muitas decisões que tenho de tomar constantemente.A minha gatinha ajudou à festa lambendo-me a cara e pedindo comida com o histerismo habitual...Sinto o frio á fora e não me apetece levantar mas tem de ser. Vejo que são apenas 6.30h da manhã.

Vou até à cozinha e preparo o chá com que começo o dia desde que me mudei para o Egipto...penso que será um daqueles hábitos que ficarão para a vida inteira, independentemente do local onde eu venha a viver no futuro...a Sweetie segue-me e insiste em pedir aqueles sardinhas que ela adora mas que vêm cheias de sal e conservantes e lhe fazem imenso mal. Resistoà tentação de lhe dar o que ela quer e ofereço-lhe os cereais que lhe farão bem ao pêlo e ao estomâgo frágil que ela tem. Amua, não quer comer e deita-se de coxas abertas ao pé do aquecedor. Irresistível! Cubro-a de beijos e um abraço que quase a sufoca! Ela sobrevive.

 

Enterro-me na cama com o meu chá e um dos cinco livros que estou a ler ao mesmo tempo...um trabalho de investigação e sociologia feito por uma escritora e jornalista americana sobre o feminismo islâmico ou a forma como o feminismo é visto e vivido no Médio Oriente...assunto pesado para começar o dia...mudo para outro dos livros que estou a ler...a biografia da Madonna. Mais "light", melhor...coloco o novo cd da Alicia Keys no meu computador e verifico, uma vez mais, que sou incapaz de escutar música enquanto leio ou executo qualquer outra tarefa que requere a minha total atenção. Defeito de bailarina...a música acaba por me levar sempre para lugares longínquos...páro a música.

 

Por volta das quatro da tarde, recebi um telefonema do chefe da minha orquestra para saber se eu estaria disponível para actuar nas Pirâmides, sem que eu entendesse a que lugar se referia...as Pirâmides pode referir-se às Pirâmides de Gizé (dançar no cimo de uma das Pirâmides???Ao redor??? Dentro???? Pouco provável...), à rua das Pirâmides (cheia de "night clubs" outrora magníficos e agora locais de entretenimento duvidoso nos quais se pode encontrar mais prostitutas do que baratas e olhem que as baratas são as donas e senhoras destes locais...se não se encontrar uma ou duas baratas no meio da comida que acompanha o entretenimento musical, algo de muito estranho se passa e penso que há direito a reclamações!) ou a uma zona de deserto ao redor das Pirâmides de Gizé onde , por vezes, o Governo autoriza a realização de festas privadas e públicas por somas astronómicas que compensam o desgaste e eventual dano daquela zona histórica. Foi este o caso.

 

O ponto de encontro foi o hotel Mena House onde esperei pelos músicos (15 elementos) e pelo chefe da orquestra. Quarenta minutos à espera das "grandes estrelas" e ao frio! Graças a Deus, tinha comigo um dos meus livros que sempre me acompanha paras os muitos instantes de impasse e espera que no Cairo se podem usufruir todos os dias!

 

Entrámos no recinto das Pirâmides no meio de um breu cerrado e um gelo que me paralizava. Já tinha esquecido o quão gelado é o deserto à noite!

Na minha carrinha, viajava eu e o chefe da orquestra mais alguns dos meus músicos e os seus instrumentos (acordeão, flauta, orgão, kanun, etc)... Eles pareceram indiferentes ao local, talvez pela familiaridade. Por mais vezes que passe pelas Pirâmides de Gizé, jamais deixo de sentir um respeito e deslumbre pela grandiosidade, perfeição e força da energia daquele local.

A carrinha levou-nos entre dunas e caminhos sem qualquer iluminação e senti que entrávamos pelo deserto, rasgando o gelo da noite no deserto de Gizé, respirando esse ar magnífico que acompanha as gigantescas pirâmides.

 

Entrámos numa zona iluminada por tochas e iluminação suficiente para uma festa de arromba montada numa encosta com a visão panorâmica das tres pirâmides de Gizé...faltou-me o ar...tentei respirar fundo e não consegui. Sei que as pupilas dos meus olhos extasiados devem ter triplicado de amplitude de tanto espanto e de tanto querer absorver tamanha beleza. Queria abarcar o poder daquela imagem ...o meio da noite em pleno deserto egípcio e as tres pirâmides de Gizé iluminadas na minha frente, como se de um quadro se tratasse...a beleza extrema deixa-me sempre extasiada e sem reacção...assim foi...

 

Avistei camelos e cavalos apetrechados ao longe e uma tenda monumental digna de um conto das "Mil e Uma Noites", bem como um grupo enorme de homens vestidos ao estilo do Alto Egipto tocando a "rebaba", instrumento típico da mesma zona.

 

O aroma a incenso espalhado pelo ar e sobrevivendo