

Diário de Joana Saahirah :
Cairo, dia 29 de Abril, 2008
Espectáculos TODOS os dias! Nada de folgas, "estou cansada", "os meus músculos não aguentam" ou "não tenho energia para tanto"! Trata-se da máquina a funcionar sem saber como nem porquê e de saber-se gerir a inspiração e a força aplicada a cada movimento para poder dar o máximo em todos os espectáculos e não acusar cansaço aos olhos do público.

Hoje veio mais um grupo especialmente para ver-me e isso faz a diferença no resultado final do trabalho e na minha disposição inicial. Um daqueles grupos a que chamam "VIP" e que vão construindo o meu nome pois o que interessa por aqui é ter-se cada vez mais público a pedir o nosso nome sem que a razão pela qual nos querem ver seja sempre a qualidade da arte que apresentamos.
Eu sei que a razão pela qual me querem ver é a qualidade do meu trabalho e isso dá-me uma imensa satisfação...
Além do grupo que veio especialmente para ver-me, deparei-me com outro grupo "especialmente" difícil com imensos senhores israelitas e indianos e uma energia muito pesada de quem não usufrui de uma sexualidade e de uma vida ricas e saudáveis. A dança oriental, quando executada com verdade e qualidade, funciona como um espelho das pessoas que nos vêm ver...as suas frustrações, sonhos, ilusões e repressões vêem-se reflectidas na bailarina e todo o mundo ali criado a partir do palco apenas se remete ao mundo do público...terrível!
Quase a mudar-me para a
minha casa nova (e temporária, mais uma vez!Será que alguma vez vou assentar?)
e ansiosa para ver as minhas coisas arrumadas, um espaço ao qual possa chamar
mais ou menos meu, os meus móveis, a minha cama (a minha primeira cama,
escolhida por mim!), e espaço para respirar e meditar.Muito bom...
Preparação de mais um
espectáculo para amanhã à noite, outro grupo VIP que vem para ver-me e pediu
exclusividade para a ocasião.Dançarei só para eles! Vou estrear o meu traje
novo, lindo de morrer e muito simples! Azul da cor do céu à noite, estrelas
cadentes, luas, cometas, muito elegante e fica-me "a matar" segundo a opinião
dos amigos que já me viram com ele. Se tivesse muito dinheiro, era a maior
consumidora de trajes de dança do Cairo! Mais do que qualquer outra roupa,
sabe-me muito bem experimentar um traje de dança e usá-lo na interpretação de
uma música, ver os materiais, o mundo para o qual ele me remete, toda a magia
que um traje pode trazer ao palco e à minha disposição para dançar...
Cairo, dia 25 de Abril, 2008
O meu país de origem está em festa, dia 25 de Abril! Vindo de uma família de tradição comunista, sei que esta data toma um significado ainda maior e reveste-se de força, alegria e a lembrança do que era o país antes da LIBERDADE e de como ele está a regredir e quase a precisar de um novo 25 de Abril, outra revolução que impeça o país de cair nas mãos dos poderosos que assim nos retiram direitos justamente adquiridos e nos fazem viver numa ditadura agora velada...
O 25 de Abril não se sente no Egipto, logicamente...como o Natal ou a Páscoa que aqui só são celebrados por uma minoria que eu, sempre no meio de egípcios, não sinto.
Hoje senti-me muito feliz porque um grupo de quatro simpáticos portugueses vieram até aos "Faraós" ver-me dançar...embora não seja o meu local favorito para actuar, foi bom saber que estavam portugueses ali comigo e que um pouco do meu país me acompanhou esta noite.Agradeço aos quatro por terem vindo.
Fui "apanhada" por uma senhora egípcia no meio do típico trânsito feminino da casa de banho e tive um "daqueles" momentos que tornam tudo suportável e me dão força para voltar, noite após noite, a dançar com alma e com propósito.
A senhora pensou, como sempre, que eu era egípcia e disse-me as coisas mais bonitas que uma bailarina pode escutar, principalmente quando estes comentários vêm de uma mulher e não de um homem que poderá ter uma segunda ou terceira intenção. Fiquei muito feliz!
Lisboa (já a caminho do Cairo, pensando e sentindo...), dia 15 de Abril, 2008
Quase, quase de regresso à minha segunda (ou primeira?!) casa, o Egipto! As saudades já são muitas, apesar de me saber muito bem estar com a minha família e amigos e respirar esta brisa tão pura que jamais posso gozar no tão poluído Cairo...
Amanhã de madrugada regresso ao Cairo e parto de mangas arregaçadas, como sempre! Preparada para a luta, este eterno recomeçar, como um ano novo que se lança a mim sempre que regresso à minha cidade de eleição.
Concentração.Respiro fundo e tento centrar-me em tudo o que tenho para fazer e nos desafios tão grandes que sempre se me deparam no Egipto.Peço a Deus, humildemente, as forças e o sentido de humor necessários para sobreviver e subir mais e mais degraus na realização dos meus sonhos.
Prestes a partir, deixo-vos este poema que reencontrei nas minhas constantes buscas no meio dos livros que encontro pelo caminho. Depois de Luís de Camões, aqui vai um pouco do meu poeta favorito: Fernando Pessoa. Logo a seguir, William Shakespeare mas, por agora, fico-me pelos "nossos"...
A MAIOR EMPRESA DO MUNDO
«Posso ter defeitos, viver
ansioso e ficar irritado algumas
vezes, mas não me esqueço
de que a minha vida é a maior
empresa do mundo, e posso
evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale
a pena viver apesar de todos
os desafios, incompreensões e
períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima
dos problemas e tornar-se num
autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si,
mas ser capaz de encontrar um
oásis no recôndito da sua alma.
É agradecer a Deus a cada
manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos
próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um
"não".
É ter segurança para receber
uma crítica,
mesmo que injusta.
Pedras no caminho?
Guardo-as todas, um dia vou
construir um castelo...»
Fernando Pessoa
Genial.Sempre.

Continuação do Diário do Egipto
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