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FIFI ABDOU, A 4ª PIRÂMIDE DO EGIPTO |
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1.
Contextualização do fenómeno
“Fifi Abdou” Os mitos e os ídolos fazem parte da história e do
quotidiano da generalidade dos países. Parece existir uma
necessidade de alguém ou algum ideal que personifique o sobre humano
e que faça sonhar, que se pareça com aquilo que a maioria das
pessoas imagina ser Deus, que faça acreditar no impossível e que dê
ou reforce a identidade de um país e a cultura de um povo.
A esses mitos atribuem-se qualidades extraordinárias colocando-os
num plano que é semi-divino, inatingível. Quando esses mitos se
esforçam por manter essa imagem quase divina e, ao mesmo tempo, se
aproximam do seu povo com calor e simplicidade, a adoração triplica
pois passa a haver a sensação de comunhão com essa centelha “divina”
que paira sobre o comum dos mortais! |
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É Em países
chamados de “terceiro mundo” em que a pobreza e os problemas sociais,
políticos e económicos se reflectem muito directamente na mentalidade e
na cultura do seu povo, estes mitos ganham uma importância ainda maior.
É o caso do Egipto, um país de História e Cultura indubitavelmente
excepcional mas com um índice de pobreza assustador e uma estratificação
social em que existe uma grande maioria de pessoas paupérrimas e uma
minoria de indivíduos vivendo no fausto absoluto (e absoleto!!).
No Egipto, à semelhança de outros países árabes, os heróis e os ídolos
estão intrinsecamente relacionados com o sistema político vigente. A
Dança e a Música – alvo dilecto do fundamentalismo religioso – ondulam e
moldam-se conforme as regras que um governante coloca na ordem do dia.
Se existe uma nova restrição legal, as bailarinas têm de usar uma rede
que lhes cobre o abdómen ( apesar do abdómen continuar a ser totalmente
visível!!), se se desvaloriza a cultura popular egípcia, as bailarinas
correm em busca de trajes e sapatos agulha (!!!!) ao estilo ocidental,
de forma a fugirem ao estereótipo considerado “tacanho” da típica
bailarina egípcia “baladi” ( “baladi” remete à identificação com a nossa
terra natal), se ressurgem movimentos religiosos fundamentalistas passa
a existir uma crise na área do espectáculo e por aí adiante.
O que é curioso é que tendemos a identificar o fundamentalismo religioso
com a Religião Islâmica quando ele existe em todas as religiões, embora
com menos projecção e talvez mais subrepticiamente. Tive um exemplo
disso quando fui – quase!!!- contratada para dançar num casamento
católico. A ideia da mãe do noivo – que me contactou – era lindíssima e
eu fiquei entusiasmada e muito feliz pela abertura e luz da cabeça
daquela senhora. Ela pretendia que eu fizesse uma coreografia de Dança
Oriental que fosse a recepção aos noivos quando eles viessem em direcção
ao altar da Igreja.
Quem conhece a história da Dança do Oriente sabe que a sua origem se
identifica com a Fertilidade e a Prosperidade, ela nasce simbolicamente
da Criação do Universo daí fazer todo o sentido apresentá-la em ocasiões
como o Casamento.
No mundo árabe, é tradicional e imprescindível que haja Dança Oriental
em todos os Casamentos que se prezem. Apesar da ideia da senhora que
tentava contratar-me - apresentar esta dança mágica que desejasse toda a
felicidade e prosperidade aos noivos - houve imensos entraves da parte
da família da noiva e, claro está, do padre que iria celebrar a missa.
Recordo-me que já tinha planeado um traje branco e um véu de seda
natural que parece asas de anjo. Lembro-me que já tinha pensado numa
coreografia com música sufi em que a flauta faria poesia sonora e o
sentimento de comunhão e Amor seria partilhado e, no fim, não foi
permitido pela igreja em questão a apresentação da dança pois poderia
ser “ofensivo” (foi este o termo que o Sr. Padre utilizou) para os
convidados e para ele mesmo.
Isto sucedeu numa Igreja católica e, para mim foi a primeira experiência
de ter sido alvo do fundamentalismo religioso. Poderia tecer várias
considerações acerca da perversão, da falta de harmonia e paz que muitos
“sacerdotes” de Deus carregam consigo, a distorção e desequilíbrio a que
a maioria dos cérebros humanos está sujeita, etc, mas não é esse o
âmbito deste texto.
Embora o tema deste artigo não fosse o fundamentalismo religioso, este é
essencial para compreender-se a vivência da Dança e da Música pelo ser
humano e para compreender a personagem que me levou a escrever-vos: Fifi
Abdou.
Fifi Abdou é a bailarina/actriz mais conhecida em todo o mundo árabe. À
semelhança do Om Kolthoum – filha de um íman que acumulava a tarefa de
“muezzin” ( pessoa responsável pela chamada para a oração) - ela
congrega e reúne os países árabes e é uma bandeira quando se fala da
Cultura egípcia contemporânea. Om Kolthoum foi o expoente máximo daquilo
a que se pode chamar um ídolo. Ela uniu os povos como ninguém em torno
da sua música que apelava ao Nacionalismo ( com óbvias ligações ao
Governo da sua época) e ao orgulho naquilo que era tipicamente árabe e,
mais concretamente, egípcio. Como a música sempre gozou de mais fácil
aceitação entre as camadas do Governo e da Igreja , Om Kolthoum teve um
papel privilegiado e foi apoiada pelo sistema político da sua altura.
Esta cantora ( e actriz) nasceu no início do século XX ( por volta de
1904) e a sua carreira floresceu numa altura em que a descolonização
britânica ainda ecoava e confundia as cabeças egípcias. Assim sendo, ela
veio reafirmar o valor e a grandiosidade da sua cultura e o público
respondeu-lhe com uma devoção que ainda hoje prevalece.
Na sequência da tomada de consciência e da revalorização da Cultura
Egípcia, surgiram outras gerações de artistas como a “geração de ouro”
(anos 30/40/50) da Dança Oriental representada por bailarinas como Beba
Aizzedin, Huriya Muhamad, Naima Akef, Tahya Carioca e Samya Gamal.
Badia Masabny – responsável por muitas das transformações e adaptações
da Dança Oriental clássica ao estilo que conhecemos hoje como estilo de
“cabaret”, mais adaptado às exigências do âmbito do espectáculo – fez
despoletar a primeira geração de bailarinas reconhecidas pelo seu valor
artístico e a sua casa de espectáculos “Casino Opera” foi a casa de onde
saíram as grandes estrelas das décadas de 40 e 50.
Nesta altura, músicos como Farid Al-Atrash (cujo “amor impossível” por
Samia Gamal é sobejamente conhecido), Mohamed Abdul Wahab e Muhammad
Fawzi (entre outros) elevaram a música egípcia ao lugar onde ela
pertencia e contribuíram para que o povo egípcio iniciasse o processo de
reconhecimento e valorização de si próprio. À excepção de alguns músicos
– como é o caso de Farid Al- Atrash –os artistas provinham de classes
sociais muito baixas, o que aumentava o sentimento de identificação do
povo em relação a estes artistas ( que se identificava com eles e, ao
mesmo tempo, os admirava pela ascenção conseguida ) e dava aos próprios
artistas a noção de comunicação e linguagem que o povo entende. Vindo de
meios muito pobres, eles sabiam o que o povo valorizava, qual a sua
linguagem, os seus códigos, a sua forma de fazer humor e relativizar a
pobreza e a seriedade da vida, o seu modo de ver o mundo. Daí a forma
como chegavam até às pessoas.
Depois desta geração privilegiada em que a dança e a música egípcias
foram introduzidas no mundo ocidental numa escala alargada (
nomeadamente através de filmes em Hollywood ) surgiram bailarinas cuja
menção vou reduzir aos nomes de Souhair Zaki ( com quem tive a
oportunidade de estudar e que muito me emocionou), Nagwa Fouad ( com
quem também tive a oportunidade de estudar e que me surpreendeu pela sua
simplicidade e humanidade ) e, finalmente, Fifi Abdou. |
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2. Fifi Abdou
– o fenómeno!
Qualquer profissional da Dança Oriental conhece estas personalidades
que abordei e, no entanto, apesar de todas as mudanças pelas quais o
mundo está a passar e, especificamente o Egipto, não deixa de ser
estranha a relação de amor-ódio que o Egipto tem com a sua dança
clássica – que , no Ocidente, reduzimos a “Dança do Ventre” – sendo
que o Folclore Egípcio goza de um outro estatuto e lugar no coração
dos egípcios.
A Dança Oriental – em tudo o que ela tem de aparentemente
contraditório e irresistível – faz parte da vida quotidiana de todos
os egípcios mas a ignorância, o fundamentalismo religioso e político
e também a falta de qualidade generalizada nas bailarinas que se
apresentam em público, tendem a denegrir a imagem da dança oriental
e criam uma relação ambígua em relação à mesma.
Fifi Abdou é uma das personagens que povoa o imaginário dos árabes e
que desafia autoridades, mentalidades e barreiras culturais. Quando
comecei a estudar Dança Oriental – ainda muito longe de pensar que
este seria o meu caminho de vida –o nome da Fifi Abdou foi o
primeiro que ouvi e a ele vinham associadas muitas histórias,
polémicas e um enorme encantamento. |
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Pertenço à geração
mais jovem de bailarinas profissionais e, por isso, muitas das imagens
que tenho são de registos em vídeo ( como é o caso dos filmes da Samya
Gamal ou da Naima Akef, entre outros).Ainda tive o privilégio de estudar
com a Souhair Zaki e com Nagwa Fouad mas estas bailarinas , apesar de
ainda serem muito presentes na vida cultural egípcia, já não actuam nem
estão em contacto permanente com o público.
Com mais de 50 anos, Fifi Abdou é a última das grandes bandeiras
asteadas em prol da Dança Oriental. Dizem as más línguas que já era
tempo de ela se retirar mas, depois de a ver ao vivo, discordo
totalmente. A Dança Oriental é atípica em muitas coisas e a questão da
idade é uma delas.
Esta é uma dança que se executa cada vez melhor com o passar dos anos,
ao contrário de muitos géneros de dança cuja qualidade tende a declinar
com o avançar da idade.
Enquanto o corpo, o espírito e a emoção funcionarem, a dança acontece e
a magia da mesma aumenta com a experiência de vida.
Fifi Abdou criou uma carreira na Dança, no Cinema, na Televisão e no
Teatro pois em todos estes meios a dança oriental é valorizada e
comercialmente muito apelativa. Multidões – nas quais me incluo –
acorrem ao teatro ou ao cinema não para ver a peça tal ou o filme y mas
para poder sentir a presença e ver ao vivo o furacão – como lhe chamam –
Fifi Abdou.
Esta bailarina é já uma lenda viva e as suas raízes populares
tornaram-na adorada pelas camadas mais privilegiadas e pelos mais
desfavorecidos. Tudo nela é nobre e orgulhoso e, ao mesmo tempo, simples
e acessível. Desta mistura, nasce o mito.
Ela é também o expoente máximo da representação da Dança Oriental no
mundo (não há bailarina que não a conheça, seja japonesa, marroquina ou
alemã!!) e é alvo de inúmeras polémicas com as autoridades religiosas
islâmicas pois desafia as normas e as restrições religiosas
constantemente.
Num país em que a população é levada a agir irreflectidamente consuante
os ditames de uma religião já de si desvirtuada ( muitas das imposições
são feitas em nome da religião sem que determinadas normas estejam, de
facto, relacionadas com a verdade do Corão ) , Fifi Abdou é também a
pessoa que simboliza a libertação dessas amarras sem sentido. Ela faz em
cena aquilo que muitos árabes gostariam de fazer na sua vida. A sua
atitude desafiadora e livre face aos tabus da sociedade árabe é, ao
mesmo tempo, admirada, invejada e temida por muitos.
Daí ter sido alvo de perseguição de fundamentalismos e autoridades que,
face ao seu poder actual como artista e interveniente activa na
sociedade egípcia , em pouco a podem atingir.
À semelhança de outras bailarinas, Fifi Abdou sabe como circular nos
corredores da política e do social egípcio e isso, juntamente com o seu
indubitável valor comercial e artístico, tornam-na quase intocável.
3. A aventura de uma ida ao teatro!!!
Das muitas vezes que viajei para o Egipto nunca houve a oportunidade de
ver Fifi Abdou ao vivo.
A impressão que tinha desta artista não era das melhores, devo
confessar. Tenho imagens de vídeos e relatos que dão apenas uma pálida e
distorcida imagem daquilo que ela representa de facto.
Destas fontes que possuo, a imagem que me passava era de alguém muito
esperto (não forçosamente inteligente, mas esperto!!) mas sem qualidade
técnica ou artística.
Tinha a impressão que ela usava – à semelhança e muitas outras
“bailarinas” muito menos bem sucedidas – do “flirt” com a audiência, das
piadas rasteiras e de modos pouco femininos que impressionavam não só
pelo inédito mas também pela pujança física ostentada. Por aqui se vê
que a imagem que tinha não era a melhor!
No entanto, e apesar da minha ideia sobre ela não ser a melhor, vê-la é
uma questão de cultura geral para alguém que trabalha nesta área.
Da minha pesquisa pessoal sobre os locais onde ela actuaria recebia
respostas evasivas e quase sempre um “não sei se ela actuará hoje ou
amanhã, também não sei se esta semana estará no Cairo, etc, etc, etc...”
Como achei que já não tinha muito tempo para ver com os meus próprios
olhos a tal “lenda viva” de quem todos falavam e sobre a qual tanto se
dizia e enaltecia, insisti na ideia de que tinha – MESMO – de vê-la
actuar desse por onde desse.
Na minha última viagem ao Egipto –há uma semana atrás - pedi a um amigo
que tentasse averiguar onde ela estaria a actuar e assim foi.
Informou-me que ela actuava no Hotel de cinco ***** “Semiramis” mas que,
uma vez mais, a actuação dela era incerta e tanto podia acontecer como
não acontecer.
Reparei que havia cartazes espalhados pelo Cairo com uma boneca (mal)
pintada que se assemelhava remotamente com a Fifi Abdou. Perguntei do
que se tratava e disseram-me que era o anúncio de uma peça de teatro na
qual a Fifi Abdou era protagonista. Era exactamente o que eu queria
ouvir e decidi que naquela mesma noite eu iria em busca dessa peça de
teatro e mataria a minha curiosidade.
Desaconselharam-me a ir a esta peça por várias razões. Uma delas e a
mais óbvia de todas é o facto de eu não entender nada do que os actores
iriam dizer – entendo o mínimo de árabe e não falo senão umas poucas
palavras que não dão para construir sequer uma frase! – e a peça tinha a
duração de quatro horas e meia !!!!! Outra razão era a localização do
teatro que se encontrava na “Broadway cairota” que é uma espécie de
Parque Mayer em decadência dupla! Outra razão ainda era o preço do
bilhete que era proibitivo até para um estrangeiro.
Mesmo assim, ninguém me demoveu da minha vontade e lá vou eu numa bela
noite de Verão a caminho a 4ª Pirâmide do Egipto.
Como é hábito, a chegada ao teatro não poderia ser pacífica e linear e,
portanto, apanhei um táxi cujo taxista não falava uma só palavra de
inglês e que me disse saber perfeitamente onde era o teatro em questão
(o nome do teatro era “Romance Theatre”).
Levou-me a um teatro e disse-me – em árabe – que os bilhetes estavam
esgotados. Eu olhei incrédula para o cartaz gigantesco que estava na
minha frente e vi que no anúncio da peça em questão estavam actores
todos vestidos de bebés com chuchas na boca e caras de otários
deliberadamente exageradas. Por um instante pensei em procurar a cara da
Fifi Abdou no meio daquele “infantário” cénico mas não consegui imaginar
a Fifi Abdou de fraldas e chucha na boca. Por mais que a minha
imaginação voasse e percorresse o improvável, essa era uma imagem
longínqua demais para ser realidade. Constatei que estava no teatro
errado, claro!
O taxista estava mais perdido do que eu e levou-me até três teatros
diferentes até que me subiram os calores – para além da temperatura já
de si calorosa do Cairo em pleno Agosto – e peguei em mim com toda a
irritação e respectivos suspiros enervados e lá fui “Broadway” adentro,
sozinha, em busca da minha peça de teatro.
De papelinho na mão e uma multidão de egípcios a entrecruzarem-se na
minha frente e atrás de mim, vi vendedores de pipocas, comida por todo o
lado, fumo que saía não sei de onde, o caos que já é familiar a esta
cidade!
Finalmente, vi um cartaz com a bendita senhora em pose sensual e lábios
repenicados ao estilo Marilyn Monroe. Uma multidão chegava para ver esta
peça de teatro e todos estranhavam a minha presença pois era a única
estrangeira naquele local – à semelhança do que me acontece em
praticamente todos os sítios onde vou quando estou no Egipto – e, ainda
por cima, não falava árabe.
Os senhores da bilheteira ainda me perguntaram se eu sabia que aquela
peça era toda falada em árabe. Eu respondi afirmativamente e sorri.
Fiz questão de estar na primeira fila da sala e pude comprovar como
existe um espectáculo antes do início do espectáculo propriamente dito.
Assim que entrei na sala de teatro, esta foi literalmente invadida por
vendedores de comida (refeições leves, aperitivos ), vendedores de
bebidas (batidos, sumos naturais, refrigerantes, água ), vendedores de
doces ( com toda a espécie de doces ocidentais e chocolates duvidosos),
vendedores de sandes variadas e fotógrafos que fazem negócio
fotografando as famílias no teatro e com algumas das “estrelas” da peça
de teatro como era o caso da Fifi Abdou. Estes fotógrafos acenavam com a
máquina e pareciam besouros a sobrevoar as cabeças do público com nomes
de actores e da atracção principal da noite.
A solenidade, o silêncio e a seriedade característicos das salas de
teatro ocidentais em nada tem a ver com aquilo que pude viver naquela
sala de teatro. Senti que aquela noite de teatro era apenas um
prolongamento da noite em si sem a criação de um espaço à parte em que a
vida pára e a arte começa. A vida e a arte numa só dimensão, num só
espaço e num só tempo. Isto é tipicamente árabe!
Depois de meia hora – ou mais!!- de comidas e bebidas intermináveis,
soaram três apitos que significavam o início da peça. A grande
expectativa de todos era ver Fifi Abdou mas a sua entrada foi precedida
por muitas outras entradas de actores que eram queridos do público –
exceptuando-me a mim – e por situações cómicas que só aumentavam a
expectativa. De cada vez que um actor entradv em cena, havia
manifestações ruidosas e calorosas da parte do público. |
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Apesar de não
entender 99% das falas dos actores, valeu-me a minha própria
experiência e conhecimentos de actriz e consegui usufruir de muitos
momentos hilariantes ao ponto de nem dar pelo tempo passar ( o que é
difícil pois quatro horas e meia de peça não passam
despercebidos!!!)
Quando Fifi Abdou entrou – com a força e a segurança de um ciclone –
arrebatou aplausos e atenções redobradas sobre o palco. Pude ver –
além de uma bailarina - uma actriz e uma verdadeira artista com uma
presença em palco, um carisma e um poder de comunicação com o
público fora do normal. Ela não só contracenava com muita graça e
desenvoltura como estabelecia um entendimento muito directo com o
público, mesmo quando não se dirigia directamente a ele.
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Apesar da sua
idade, continua a ser um mulher belíssima e sabe usar essa beleza de
forma pouco subtil mas despretensiosa. A sua silhueta é tipicamente
egípcia com as curvas exageradas e os quilos que no Ocidente seriam
motivo de vergonha mas ela não só assumia a sua fisionomia e formas como
se orgulhava disso e até brincava com a questão fazendo-nos sentir o bem
que ela também se sente na sua própria pele.
Num dos números que apresentou com a orquestra que acompanhava a peça,
Fifi chegou a prender a bagueta do violino numa das gordurinhas da
barriga e da cintura. Fê-lo com graça, descontracção e arrancou
gargalhadas bem dispostas de toda a gente.
A música esteve presente durante toda a peça mas foi criado um intervalo
e depois um espaço só de dança, canto e música no qual pude perceber o
porquê da idolatria em relação à Fifi Abdou.
Ela não possui, de facto, uma técnica apurada e diversificada e não
parece preocupar-se com isso. Está no palco como se estivesse em casa,
tal como o público que está na plateia e poderia estar na sala de estar
das suas casas. Há um ambiente familiar impressionante que nos acomoda e
acolhe com calor, simplicidade e nos torna todos numa só família. Ela
consegue – através da sua pessoa mais do que através da sua dança -
reunir as pessoas e comungar de um só sentimento e de uma só sensação
com elas.
Fez várias entradas com trajes diferentes em que a mini saia e os
decotes estavam na ordem do dia (as exigências do “star system” egípcio
não lhe passam despercebidas!) e bastava dar um passo na direcção da
audiência para colher olhares esbugalhados e sorrisos francos e abertos.
Fazia questão de se aproximar das pessoas com segurança em si mesma e de
coração aberto e não raras vezes parava de dançar para responder a um
comentário dos músicos ou do público.
Enquanto dançava, vociferou com um dos músicos quando este não
acompanhou o ritmo que ela pretendia e continuava a dançar apesar de
conversar ocasionalmente com uma das cantoras.
Fez humor a partir de pequenas coisas e passou largos minutos a executar
o seu famoso “shimmy” de ancas em que todo o seu corpo vibra de um modo
descontraído e alargado, como uma planície montanhosa a ser levemente
desestabilizada pelo sub solo.
A forma como esta artista se ama a si mesma e se valoriza transparece
para todos os que a vêem. Ela assume cada gesto como se fosse o melhor e
mais acertado do mundo porque é dela, porque foi sentido e transmitido
por ela, é a sua forma de chegar até nós. É uma força da natureza
assumida, sem medo e com uma aparente agressividade que não esconde uma
mulher amorosa e generosa.
Pude constatar como demonstrou a sua força física ( importante para se
impor num mundo muito masculino e machista como é a sociedade egípcia )
num número de”Al Assaya” que apresentou como se fosse um homem.A sua
expressão tornou-se dura e seca como a expressão dos homens do Alto
Egipto quando, solenemente, lutam pela sua honra em sessões de “tahtib”
acompanhadas por música. |
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A sua
expressão alternava-se consoante a reacção do público e chegou a
“martirizar” um pobre cavalheiro que estava na primeira fila e que
se atreveu a não bater palmas na primeira vez que ela entrou em cena
para dançar!!! A partir deste episódio, ela formulou piadas e
dirigiu-se a ele várias vezes ao longo do espectáculo deixando toda
a gente com o riso pendurado e solto.
Como as suas netas estavam na primeira fila, ela dirigiu-se a elas
muitas vezes e beijou-as, olhou para elas como se não estivesse a
decorrer um espectáculo.
Houve sempre nela uma mistura de sentido de espectáculo – alguém que
sabe estar em cena e a domina como ninguém – e uma sensação de estar
em casa, descontraidamente, sem ninguém a olhar para ela.
Vi na Fifi Abdou o protótipo da Grande Mãe babilónica que cuidava e
destruía os seus filhos conforme os seus caprichos. |
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Nessa figura
maternal cabia tudo, a mulher sensual e poderosa que assume a sua
identidade e a sua sensualidade com afinco e a mãe compreensiva mas
também repreensiva que tudo abarca, tudo cria e tudo destrói, que tudo
colhe e que tudo espalha à sua volta. Ela pulsava a vida e transmitia-o
ao público.
O arquétipo de todas as facetas que a Mulher pode ter estava ali, à
minha frente, e eu entendi o porquê de ela se ter tornado a figura que é
hoje.
Fez também a dança com a “shisha” que é sobejamente conhecida pelos
amantes da dança oriental e pelos egípcios em geral. Esta dança consiste
simplesmente em circular pela audiência com uma “shisha” ( também
conhecida por “narguilé”, uma espécie de pipa de água pela qual se fuma
tabaco com vários sabores exóticos) dançando.
Existe um rapaz que a segue segurando a “shisha” e ela fuma-a de formas
diferentes ( por uma narina apenas, pelas duas, etc) coordenando esta
pequena encenação com movimentos simples de ombros ou com “shimmy” de
ancas. A graça e o desafio está no facto do hábito de fumar “shisha” ser
masculino e na aproximação física da bailarina e do seu olhar em relação
ao público. É impossível não nos rendermos à humanidade e coração grande
que se desprendem daquela mulher. |
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Pude sentir
como ela gosta verdadeiramente das pessoas e o mostra através do
olhar, dos gestos, da aproximação, da descontração com que está
rodeada de pessoas.
Sem nunca perder a sua presença imponente, ela consegue encantar e
derreter os corações de todos pois o coração dela também está aceso
quando dança e partilha o espectáculo com o público.
Ela destrói as barreiras entre a cena e a audiência e fá-lo com uma
dignidade e um sentido de humor notáveis. |
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Ao vê-la, não tive
oportunidade de colher técnicas e passos de dança especiais mas tive
oportunidade de ver uma grande artista que me deixou com lágrimas nos
olhos e me emocionou pela atmosfera de amor e alegria que conseguiu
criar numa sala de teatro.
Quando passou na minha frente- vendo que era única estrangeira na sala –
pegou-me na mão e apertou-a com um sorriso de agradecimento que não
esquecerei.
Todo o espectáculo foi magnífico e as horas não se sentiram.
Quando saí do teatro, o meu coração estava cheio de alegria e
transbordava de gozo pela vida e não exagero quando o digo.
Esta é a missão da dança oriental. Talvez esta seja a missão da Arte.
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Joana
Saahirah
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