A esfinge recebe o “american way of life” de braços abertos…

 

 A nova Atlântida, um país milenar esquecido de si próprio enquanto recinto de Sabedoria, Riqueza e Espiritualidade. Da minha casa posso escutar claramente os cinco chamamentos para a reza que ecoam por todos os países     maioritariamente muçulmanos, como é o caso do Egipto.Cerram-se-me os olhos de emoção ao sentir esta música divina na pele da minha alma.

O olhar do Homem sobre o Invisível. A palavra do Homem sobre o indizível. A teoria do Homem sobre o que não se pode teorizar. A tentativa – mal lograda, a meu ver – de materializar o que não pode ser materializável sem ser através do milagre da Vida!

Posso ouvir a voz profunda e tocante do muezzin da “minha” mesquita e , embora não entenda plenamente o significado de todas as palavras, consigo intuir o seu simbolismo e sentimento. 

 Às sextas-feiras (dia santo para os muçulmanos, à semelhança do Domingo para os cristãos), entre os vendedores de frutas e vegetais –  uns mais comestíveis que outros – nasce uma bruma humana prostrada no chão, rezando em uníssono.

Tapetes com bordados sumidos servem de aconchego aos joelhos cansados dos que rezam ou repetem os textos corânicos com maior ou menor convicção. Da estrada poeirenta e poluída de constantes carros e tubos de escape, brota um tapete de crentes ou seguidores da religião muçulmana. O aroma do incenso paira sobre as milhares de cabeças agrupadas ao redor das mesquitas e o vento corre mais lentamente até que a reza termine. 

Estudar no Egipto já é uma experiência reveladora por si só. Mas VIVER no Egipto, é todo um processo alquímico de “choque” de onde ninguém sai ileso! Existe uma ressaca diária resultante da explosiva mistura de todos os ingredientes que se cozinham neste país fascinante, perdido e contraditório.

 

A imagem do Antigo Egipto é apenas um sonho que os turistas trazem para cá e que já só poderão vislumbrar em excepcionais ocasiões em que o acaso esteja a seu favor. O verdadeiro Egipto,  como eu tenho a sorte de conhecer e como eu amo, só se pode viver em raras ocasiões e em locais recônditos onde o dedo esmagador do turismo de massas ainda não chegou em toda a sua pujança. Os egípcios actuais muito pouco ou nada têm a ver com os egípcios que estudamos nas nossas escolas e que tanto admiramos.

Egipto! País sagrado por onde passaram tantos povos, domínios, influências,  destruições, liquidação de pureza…

Ainda consigo ver no olhar de alguns seres iluminados uma réstia do solo sagrado deste país. Embora sejam relances de felicidade, tenho a perfeita noção que a água outrora límpida do rio Nilo nunca foi tão turva como hoje.A pureza foi roubada aos egípcios e estes perderam a noção de quem foram, de quem são e de quem querem ser. Navegam à deriva pelas águas negras do Nilo. O quotidiano vive-se, por aqui, como uma corrente arbitrária cujo destino final ninguém conhece, apenas Alá !

O Ocidente entrou por estas terras do Sol com uma atitude imperialista e comercial que está a conseguir aquilo que nenhum povo conseguiu durante muitos séculos: apagar a alma do Egipto! O espírito deste país esconde-se agora de vergonha atrás de palmeiras e pirâmides pois ninguém o quer ver…todos o ignoram e pensam nele como um passado glorioso mas actualmente ignóbil e desnecessário.

Os valores dos antigos egípcios, a sua ética, a sua beleza e nobreza de carácter são fantasmas que pairam sobre as nossas cabeças, apenas isso.

A generosidade, a honestidade, o conceito de “palavra de honra” e dignidade, a simplicidade de carácter e a verdade nas relações humanas  foram triturados e substituídos pelo valor do dinheiro, do poder e de uma ilusão de felicidade na adopção de um estilo de vida ocidental. 

A sociedade egípcia atravessa, nos últimos anos, uma das suas piores fases e o povo deste país desconhece – e, por isso, desvaloriza – a sua própria cultura, mal trata-a e nutre por si mesmo uma auto-estima faminta.

É impressionante ver como um dos países mais ricos do mundo – em cultura, em História, em recursos naturais, em metais, em produções agrícolas, em estruturas turísticas, etc – pode ser tão pobre e tenha de recorrer a “ajudas” de países estrangeiros.

A geração MTV avança em força por todo o país, a Internet e os filmes americanos passam uma imagem de libertinagem e ilusória liberdade que aqui não se vive claramente, muito por pressão da religião muçulmana que esculpe carácteres e mentes. 

Os egípcios dos dias que correm orgulham-se de falar inglês, idolatram a cultura ocidental – em especial , a americana – e aspiram a viver um estilo de vida que  julgam ser o mais completo e aquele que lhes traria felicidade e comodidade.

A religião muçulmana condiciona o pensar e o sentir de todo um povo mas também representa uma réstia do contacto com o Divino, contacto esse que é vivido por aqui – na grande maioria das vezes – como uma obrigação ou uma matéria ensinada na escola mas que não contém em si uma verdade ou utilidade práticas e aplicáveis no dia a dia.

Existe o medo do castigo divino, do julgamento … como existe noutras religiões… mas não existe a compreensão e o sentir verdadeiros e autónomos da relação divina com a Vida ou da dimensão divina da mesma!

O Egipto adopta para si mesmo uma vivência intensa da religião mas não da espiritualidade, dois conceitos em muitos aspectos diferentes e até opostos. 

Se falarmos da cultura egípcia em termos musicais entramos na mesma dimensão de perda de identidade e fusão nem sempre bem conseguida entre aquilo que é egípcio e aquilo que os ouvidos das novas gerações querem escutar, influenciados pelos video-clips americanos representantes de atitudes provocatórias e censuradas neste país.

A chamada modernidade luta com todas as suas forças com a típica sonoridade egípcia e ganha terreno numa batalha que já não é apenas cultural mas comercial.

Caminho por uma rua do Cairo. Caras e atitudes. Aromas e sons. Alguns agradáveis , outros estridentes. Passo por um café onde homens de todas as idades fumam “shisha” e bebem chá com muito, muito açucar que é para animar os espíritos!

O café está forrado de “posters” e quadros de cantores antigos e actrizes com ares tão diáfanos que parecem ter morrido no instante seguinte à tiragem da fotografia.

Mesas, cadeiras e balcão não primam pela higiéne mas ninguém parece importar-se muito com isso. Detalhes sem importância numa vida tão cheia de coisas simples para usufruír. O amor e o romantismo cantados pelos egípcios pairam pela televisão onde se encontram dezenas de cabecinhas coladas.Entre um trago de chá e um fuminho de “shisha”, um ou outro olho passam pela televisão e comentam entre si “antigamente é que era bom”!

No filme que passa na televisão do café, surge uma banda musical a preto e branco, como em todos os filmes egípcios! Uma bailarina segue-se aos músicos e os tons melódicos de um passado musical glorioso ecoam pelo café, pela rua que circunda o café e pelos corações de todos os que passam, distraídos, pelo cenário descrito.De repente, um rádio – semelhante a uma engenhoca datada de 1920 – ganha vida e faz saltar cá para fora uma música moderna, daquelas que os jovens gostam e que são o “futuro do país”. A música virá sempre acompanhada de sons paralelos, uma chuvinha denunciadora da antiguidade do rádio ou outro problema técnico sem a menor importância!

A música da engenhoca “vintage” funde-se com os acordes antigos do alaúde que ressoa da televisão e , nesta miscelânia de sons e emoções, os  chás desaparecem dos copos baços e apenas restam uns dentinhos de hortelã no fundo dos mesmos, ansiosos por verem qual o desfecho musical desta fusão… 

O Egipto é geograficamente grandioso na sua dimensão espacial e na beleza e variedade das suas paisagens, gentes, dialectos e culturas locais espalhadas por todo o território.Mas é no Cairo que mais se pode sentir a agressiva invasão do pior do que o Ocidente tem para “oferecer”!

Existem aspectos positivos nesta “invasão”, é claro! A tecnologia, os meios industriais e técnicos que o país adquire, o contacto com outras religiões e mentalidades…no entanto, todos esses aspectos não passam de privilégios que trazem consigo contrapartidas pesadas de suportar.

Como amante assumida deste país, aprendo a aceitá-lo e a compreende-o para lá da minha ilusão, do meu sonho, da imagem do “meu” Egipto. Não me resta outra alternativa porque a minha vida profissional passou sempre por aqui.

Mas posso e devo, como profissional, manter uma atitude crítica e construtiva em relação ao país que adoptei primeiro como local de estudo e aperfeiçoamento e depois como local de exercício directo da minha actividade profissional.Através da minha arte e do meu trabalho, é cada vez mais um sonho trazer até vós um pouco da essência escondida do Egipto que eu conheço e que eu tanto prezo.

Embora ele teime em esconder-se atrás de aspectos menos belos e nobres, tudo farei para lhe tirar o véu e levar-vos a desvendar – ao meu lado – as maravilhas que este país tem para oferecer no fundo do seu coração.

Inshah Allah !!! Conseguirei!

As imagens que incluí neste artigo são apontamentos ligeiramente irónicos e assumidamente  cómicos do Egipto! Usufruam e riam pois é o que os próprios egípcios fariam se vissem estas imagens.